Seu sono era tão pesado e sua respiração tão alta que ela podia fingir que isto justificava sua insônia. Ele dormia profundamente na sua realidade insólita, cuja fragilidade resumia-se aos sonhos dela. Na cabeceira, como plano de fundo daquele dorminhoco príncipe, havia uma foto do casal. Ela estava linda na foto, fora batida sobre as falésias, seus cabelos aloirados esvoaçavam e seu sorriso abraçava a foto com a firmeza que ele a abraçava na mesma.
Ela não enxergou a foto, nem a lua atrás dos escuros vidros do quarto. Ela só tinha olhos para a mala que ele trouxera de sua viagem.
Acariciou-lhe o rosto como toda mulher apaixonada, beijando-lhe em seguida. Queria somente medir a profundidade de seu sono. O carinho fora como uma pedra jogada num abismo, o movimento dele era o barulho desta pedra ao tocar o chão. Ele não acordou.
Ela levantou-se calçando as pantufas, para fazer menos barulho. Caminhou na escuridão que somente era rasgada pela lua, abriu a mala de couro. Remexeu discretamente nas roupas, verificou os bolsos, cheirou aquelas que ele poderia ter usado. Não havia um único vestígio de outra mulher.
Diante de sua desconfiança infundada, ela sentou-se no chão. Talvez outra mulher sentisse vergonha de ter invadido a privacidade do amante daquela forma, mas não ela, sentia-se em seu direito, cumprindo seu papel.
Respirou fundo, descompassada dele e baixou os olhos. Sobre os chinelos de seu amado, o celular. Ela pegou-o. Ela achou ali, o que procurava.

2 comentários:
"Ela achou ali, o que procurava."
E mesmo que não tivesse nada, apenas uma ligação perdida, ou mesmo um torpedo mais íntimo, de amiga, ela criaria uma tese inteira e a defenderia sem chances de argumentação para o rapaz, afinal, ela achou ali o que procurava...
Esse eu-lírico viu! Só é loira!
Um beijo meu amor! Minha amiga querida!
PS: E um sorriso de menino véi para você! Rs.
Coisas do ciume...
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