sexta-feira, 25 de maio de 2012

A melhor roupa

Usei meu melhor vestido para que você me notasse. Escolhi delicadamente as cores que combinassem com meus acessórios, aqueles que comprei pensando em Chanel.
Venci meu desgosto por pulseiras e escolhi um salto alto que tentasse ser confortável. Ah, meu cabelo, estava impecável como nunca antes estivera.
Saí sorrindo e rebolando, parecia uma adolescente descobrindo a própria sensualidade ou uma dessas moças que passam o dia com espelhos.
Então você me olhou e sorriu de longe, cumprimentou-me como se tivesse me visto há poucos minutos atrás e saiu por aí, alimentando meus medos, minha imaginação e meus sentidos.
Sentou-se ao meu lado uma hora mais tarde, ainda disperso, diminuindo o valor do meu vestido, das minhas curvas e da minha pintura. Esta que antes tinha teu nome, agora chamava-se sorriso.
Passaram alguns dias e você me ligou no meio da tarde de sábado avisando-me que todos iam assistir o jogo do Brasil na sua casa e perguntando se eu não queria ir.
Antes mesmo que eu pudesse responder, você parou o carro em frente a minha casa e disse para eu sair.
Saí e entrei no carro com um short xadrez, uma blusa regata e o cabelo livre, livre de mim e de qualquer preceito e preconceito.
Passamos a tarde juntos, sem palavras, sem charme, sem pinturas.
Então no final do dia, você olhou para mim e disse: acho que nunca te vi tão bonita.
E eu sorri cheia de segredos... entre teus beijos...

Humanidade

A incapacidade de amar nos torna menos humanos?

Amar nos torna mais humanos?

O que é ser humano?

É ser capaz de sentir o corpo explodir com um olhar?

É ser diferente?

É ser igual?

Já não sei o que é o amor e o que é ser humano.
Já não sei o que é acordar sendo eu mesma, porque agora já me desconheço demais para ser alguém.
Parece que a cada instante sou alguém diferente.
No instante anterior, eu era liberdade.
Agora, eu sou saudade.



quinta-feira, 24 de maio de 2012

Contrato

Abra-me, pois estou fechada.
Liberte-me deste lacre invisível
de palavras, sonhos, medos e pesadelos.
Mostre-me quem sou, quem fui, quem serei.
Deixe-me solta, porém, pois meu andar é manco
Mas é o peso do outro que me desequilibra.

Abra-me os olhos quando eu for cair,
mas me deixe de olhos cerrados se for necessário sorrir.
E se eu precisar de mentiras para dormir,
Conte-as por uma noite ou duas
Para que me seja permitido sonhar.
Mas não me deixe na ignorância
Até as farpas da realidade me cortarem.

Escuta-me de ouvidos fechados
Quando meus gritos vierem com lágrimas
E me abraça forte quando se cessarem os desabafos.
Quando não mais me aguentares
Parta, mas se despeça.
Avise-me da partida para que eu te segure a mão,
Para que eu te olhe com olhos do passado
Pela última vez que me for permitido.

E sorrirei como a menina que não sei ser
Para que ambos sejamos livres, eu e você
Dessas nossas formas tortas de viver.
E ficarei sem laços, abraços, olhos e ouvidos
Para mistérios que nos incluam.
E permanecerei fechada, lacrada, pintada e esculpida.
Para que nossos segredos não me escapem
Para que o mundo não corrompa o que fomos
Enquanto corrompe o que somos.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Momento Revolto

Por que as pessoas precisam tanto de auto-afirmação? (me incluindo, já que sou pessoa)
Os sós acham que são melhores, os acompanhados também, resultado, ninguém é melhor que ninguém.
Os ateus acham que são melhores, os crentes também, resultado, ninguém é melhor que ninguém.
Os homens acham que são melhores, as mulheres também, resultado, ninguém é melhor que ninguém.
Os cultos acham que são melhores, os não-cultos acham os cultos engraçados. Resultado? Precisa mesmo dizer? Ninguém é melhor que ninguém.
As crianças acham que ser adulto é melhor, os adultos, acham que ser criança é melhor. Resultado, ninguém é melhor que ninguém.
E ficam todos nessa eterna briguinha de auto-afirmação e aqueles que fingem fugir dela dizem. "Ah, eu sou tal coisa porque é melhor pra mim, não porque quero ser melhor que alguém".
Ótimo, seja em silêncio. A sociedade agradece.



Cicatrizes não falam...

Elas gritam.


Não levante o tapete.