Uma vez, em aula de inglês, me
explicaram que o pensamento só é expresso em duas formas: imagens e sons. Eu
acho que essa explicação tão básica resume de forma impressionantemente importante
o desenho. As palavras nada mais são do que a junção da imagem e do som.
Atribuímos aquela imagem um significado e um som pseudo universais, já que cada
pessoa tem sua própria linguagem.
E assim como cada pessoa tem sua própria
linguagem, tem sua própria relação com o desenho. Por muitas vezes, resumimos
nosso “desenhar” ao desenhar letras. Mais recentemente ainda, nem isso, usamos
o computador, como estou fazendo agora, para fazê-lo.
Minha relação com o desenho
talvez seja aquilo que não é o comum ou o incomum. Quando pensamos em alguém
que desenha, costumeiramente pensamos em pessoas reproduzindo imagens
específicas, como a famosa cesta de frutas. Eu, particularmente, nunca desenhei
uma cesta de frutas. Eu raramente desenho o que está na minha frente,
provavelmente o ambiente que mais fiz isso foi exatamente o curso Desenhar para
Viver.
Eu não consigo falar do desenho
sem explicar como sinto minhas emoções. Pensamentos e emoções são tão
misturados, como uma enchente de água desordenada, que parecem que vão
transbordar a qualquer momento. O desenho sempre foi uma válvula de escape.
Parece que ao movimentar minha mão, ao concentrar meus olhos, eu dou a esse rio
de águas turbulentas uma oportunidade de saber para onde ir. Veja só, o destino
não é o que estou desenhando, é outra coisa. É como se o desenho fosse somente
uma ferramenta, um calmante imediato. Desenho olhos, bocas, rostos, mãos,
sapatos, perfis, enquanto penso em um problema, uma decisão, qualquer coisa.
Não tenho técnica, nunca estudei
desenho além de uma disciplina de 6 meses muito mal aproveitada na faculdade. O
que eu sei de desenho aprendi olhando minha mãe, ouvindo-a conversar e,
obviamente, rabiscando.
Sempre disse que um dia ia
aprender a desenhar. Sempre falava que eu queria ser capaz de transbordar essas
emoções em uma folha de papel de forma representativa. Porque, sinceramente, eu
não consigo. Por mais que eu tente, o desenho nunca consegue expressar o que
quero expressar. Nunca chega lá.
Então, ganhei o primeiro módulo
do curso. Ganhei sim, de presente. E aquele se tornou um espaço semanal para
desenhar. Não para que o desenho fosse o coadjuvante dos meus pensamentos, mas
o protagonista.
A técnica dada nas aulas é
básica, afinal não é um curso profissionalizante. Mas me ajudou a repensar
minha própria forma de desenhar. Eu gostava do tentar também. Tentar desenhar
um rosto dentro de um círculo. Tentar desenhar uma máquina de cartão e depois
transformá-la em um cortador de grama. Tentar expressar a raiva e a calma.
Tentar fazer um desenho que você olhe e pense, sim, eu desenhei isso.
E como tudo na vida, tentar
também significa descobrir. Há quem pense que você está descobrindo o quão medíocre
você é. Mas veja bem, se estivermos sempre pensando na mediocridade, fugindo
dela moraremos nela. É preciso treino, tempo, dedicação e vontade para ser algo
mais do que a Moda, que na estatística é valor ou elemento que mais se
repete em um conjunto de dados, sendo uma medida de tendência central útil
para identificar padrões ou preferências.
Então nessa jornada, eu descobri
o carvão, por exemplo. Eu adorei pintar com ele, desenhar com ele. Adorei misturar
os materiais. Adorei usar lápis de cor e aquarela.
Mas sabe uma coisa que somente o
curso poderia permitir? Ver outros trabalhos. Quando o professor passa uma tarefa
e você vê como cada um a enxergou de um modo. Uma capa do Hibisco Roxo sendo
desenhada como realmente um Hibisco e o desenho ficar tão belo que você fica
olhando para ele como quem sabe poderia mergulhar. Ou em uma aula de perspectiva
uma pessoa misturar trabalhos manuais e pintura e fazer diversas montanhas
coladas uma na outra.
Eu sempre vi o desenho como uma
forma de expressar quem você é. Há aqueles que não negam seu perfeccionismo,
sempre buscando as proporções perfeitas, ou aqueles que simplesmente saem da
caixinha. E há aqueles que nem mesmo tentam, pois como o desenho não será igual
a imagem em suas cabeças, ele nunca estará altura de suas mãos, do lápis e do
papel. Eu respeito quem não quer desenhar, seja por medo, seja por não gostar,
porque somos diferentes e o mundo seria um tédio se fossemos todos iguais. Mas
eu tenho medo de um dia me tornar uma dessas pessoas.
Ousar riscar um papel e ver o que
acontece, que é a, para mim, a verdadeira proposta do curso, é um ato que todo
ser humano deveria experimentar. Eu espero nunca parar de desenhar. Sendo bem
clichê, porque é isso que sou. Desenho é expressão e expressão é vida.
Já dizia o filósofo: “Penso, logo
existo”. Se você pensa, cadê o seu pensamento?