segunda-feira, 5 de julho de 2021

A raiva e o equilíbrio

A alegria e a tristeza. A saúde e a doença. O prazer e o desgosto. Yin e Yang. Dualidade. Antônimos. Maniqueísmo. Estamos sempre procurando opostos, compreender o um conceito por seu confronto com outro conceito. Construir significados de presença, pela sua ausência e vice-versa. Senti-los.

Qual seria então o antônimo da raiva? A paz? A tranquilidade? A serenidade?

O que é a raiva afinal? Um gigantesco monstro verde capaz de destruir cidades mas que nós guardamos por baixo da nossa pele até que ele rompa? Um poder gigantesco capaz de transformar uma criança em um macaco gigante? Os dentes afiados de uma fera prestes a atacar? Uma voz interna que pode ser caracterizada por um nada simpático personagem vermelho que lança chamas de sua cabeça? Um dos sete pecados capitais?

Eu nunca atribuí à raiva, um conceito, mas sempre uma sensação. Um fogo interno que consome tudo o que vê pela frente, inclusive racionalidade, ponderação, empatia. Uma força que domina a boca e cega os olhos e, em alguns casos, toma-nos o controle das mãos. Descontrole.

Se há alguns anos me perguntassem o que mais me incomodava em sentir raiva, eu responderia: não me sentir eu mesma. O que seria uma total mentira. O que mais me incomodava na raiva era a crueldade. Era saber que em um acesso de ira, eu poderia ferir irremediavalmente alguém que eu amava atingindo-lhe seus pontos fracos com palavras mais afiadas que katanas. Como confiar em si mesmo?

Hoje, continuo compreendendo a raiva como um fogo, como uma energia que nos consome, que pode ser utilizada para vencer inércias ou para construir o caos, depedendo de como você a encare. Contudo, hoje, também compreendo que a raiva pode ser algo necessário. A raiva pode ser um escudo, uma solução, uma defesa às agressões do mundo ou do outro, porque não. Também podemos usar fogo para acabar com incêndios. Podemos usar a raiva para impedir que nos batam. Podemos usar o calor para cauterizar feridas.

Parar de enxergar a raiva como algo que deve ser evitado foi libertador, mas olhando agora, parecia uma resposta tão óbvia. A raiva é costumeiramente associada ao nosso lado mais animal e, olhando a natureza, ela usa a raiva como proteção, principalmente contra esse bicho homem que a ataca sem racionalidade alguma, mesmo não estando com raiva.

Continuo sem saber se a raiva é um antogonico da serenidade, mas já a compreendo como parte de nós, tão entrelaçada às demais emoções que suprimir indiscriminadamente a raiva pode ser tão ou mais perigoso quanto deixá-la emergir sem cuidado algum.

No fim das contas, a palavra é Equilíbrio.