quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A Folga do Cinismo

Por vezes o olho e não vejo quase beleza. É tão simples para meu olhar cínico medir-lhe defeitos e qualidades físicas. Ao contrário, porém, das mulheres exibidas que passam na rua, sua beleza é mutante. Um piscar de olhos e a barba rala que antes me arrancou caretas, agora me desenha no rosto um discreto sorriso e tenho vontade de beijar-lhe o queixo. É seu charme.

Vontade de murmurar baixinho em seu ouvido, posso te fazer meu chaveiro para te apertar quando eu quiser?

E ele, como quem escuta meus murmúrios secretos, vira-se de costas adormecido. E quando me dói esse inconsciente movimento de rejeição, sua mão busca-me com um tatear inseguro. Ele quer meu calor. Minhas mãos anormalmente quentes em suas costas geladas, sou seu cobertor mais eficiente e seu sorriso mais arriscado, pois no momento seguinte posso estar a zangá-lo e acusá-lo de ser o autor de todos os meus medos.



Naquele momento, no entanto, tudo o que me pede é um abraço silencioso, e eu cedo, pois meu coração, hoje, tem abrigo.
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domingo, 24 de outubro de 2010

Passos do mundo



Fórum Social Mundial - Janeiro de 2009

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Quando não se ousa amar sem reservas é que o amor já está muito doente.


Goethe

Gaita

domingo, 10 de outubro de 2010

O que fazer?

Tenho direcionado muito a mente a poucos assuntos. Um destes selecionados assuntos é tratamento de água e sustentabilidade. Talvez até mais isso que o projeto da escola rural em si.
Eu vejo todas as possibilidades, e vejo todos os impasses.
Todos é exagero, evidentemente. Mas tanto de tudo que prefiro pensar que é perto do todo.
Será que tudo é fantasia? Será que até o meu mundo real é lilás para não ser cor de rosa?
Eu não sei. Meu príncipe encantado diluiu no brilho de um vitral, meu anti-herói se mostrou um pagem qualquer, minha igreja se corrompeu, meus ideais se poluíram com desânimo, meus sonhos me são lentamente roubados pelas oportunidades.
E então, vejo esses estudos sobre tecnologias de tratamento de águas, os cálculos para tornar isso possível, os vídeos, esse todo tão pequeno que para mim significa tanto, que me impulsiona a tornar possível alguma coisa.
Abro os olhos e ainda estou em um escritório quente, olhando para uma tela sem objetivos, somente com desenhos mal feitos que implicam comigo. Atrás de mim, papéis que guardam a esperança de serem melhores do que o presente que se concretiza.
O que fazer?

sábado, 2 de outubro de 2010

Desejo Profundo


Quero te carregar em vazio, sem um adeus.
Mas então, não sou capaz de andar.
Eu, que por natureza, afundo
em um mar de chumbo.
Sou quebrada.
E me fizeste acreditar em cura.
Agora, sinto a latência
das minhas rachaduras.
Mas sem ti, minha noite
não tem solidão anormal.
Sou somente eu, com meus pensamentos,
planos e sonhos.
Ah! E lembranças.
Mas nelas, há teu fantasma ainda
quente, que me toca e me congela.
Por isso, digo-te adeus, para que
um dia, tal fantasma sinta-se
livre para caminhar para luz.
E fique aqui somente os quadros
dos nossos sorrisos.