terça-feira, 23 de abril de 2013

.........................Minha bela Mabele.......................

Eu não a conheço.
Não sei nada sobre ela
Não conheço nem mesmo a cor dos seus cabelos.
Talvez sejam ruivos para lembrar o fogo.
Ou negros, para imitar a noite.
Talvez tenham aquele toque de queimado do sol
Pois toda nordestina o tem um pouco.
Sei que tem olhos grandes para devorar o mundo.
Não grandes como o lobo mal.
Grandes como a lente de uma câmera que nem sempre obedece seu fotógrafo.
E tem um jeito de menina nas bochechas
Que é traído por sua forma de falar.
Escuto sua voz grave que não conheço.
Imagino-a grave porque a tenho madura.
Mas não a conheço.
Não sei nada sobre ela.
Desconheço sua altura, seus desejos, seus medos, seus sonhos.
Desconheço mesmo seus amores.
Mas a desenhei com pele de rapadura.

A vejo correndo pelos campos nordestinos
Seja seca, seja verde
Porque ela tem poesia dentro dela
Se é por isso a rapadura?
Não, a rapadura é pela luta.
Então conheço a luta?
Eu a deduzo por sua blusa e bandeira.
Já falei dela uma vez.
Ah, não, só pra esses ouvidos que se perdem no tempo
E pra quem falo quase tudo.
Porque o retrato que fiz dela não cabe a todos
E o lugar que a guardo não é alcançado por palavras
pois foram as palavras que a levaram para lá.
Ao invés de moléculas, seu rosto e seu corpo são feitos de letras
Sua respiração são sons que vão direto ao coração
E seu retrato é mutável como uma nuvem ao vento.
Se um dia a conhecer, não sei o que direi.
Nem sei se ela achará estranho meu abraço desengonçado.
Não sei nada porque não a conheço e se a conhecesse
talvez a conhecesse menos ainda.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Entre dois gênios

O Prólogo do Conde de Monte Cristo o compara com o Crime e Castigo e fiquei, página após página, buscando algo que ao menos lembrasse um livro no outro.
Eis que no final essa semelhança surge gritante, forte e vencedora. Edmond Dantés e Raskólnikov consideraram-se superiores aos demais e ambos reconheceram-se humanos, por fim. Viram suas fraquezas e condenaram-se ao sofrimento.
Ambos encontram uma salvação no amor e apoiam-se em Deus para justificar sua fé no perdão. Edmond, ao contrário de Rodka, sempre acreditou em Deus, chegando a usá-lo para justificar algumas de suas ações.
Rodka diferentemente só se entrega a fé quando não mais suporta o peso de seu crime. A fé torna-se o estranho que no meio do caminho vem ajudá-lo a carregar sua cruz.
Um movido pela vingança e outro pela ambição, mas ambos entregues a fé em si mesmo.
Porém, apesar desse fim convergente, ouso dizer que os livros pouco tem em comum. A escrita, a colocação, os personagens e a forma que as ideologias invadem as mentes.
O Crime e Castigo consagra-se como uma obra mais densa, mais difícil de ler, mais instigadora, mais assustadora até, porém confesso que me tocou mais profundamente.
O Conde de Monte Cristo impera como o próprio conde, com altivez, tem uma postura completamente diferente do outro. Eu não o li, eu o devorei. Não conseguia ler cinquenta páginas em um dia, precisava ler cem, cento e cinquenta, duzentas que fosse. Era água a um sedento, era comida a um faminto, era liberdade a uma mente bagunçada.
O clima dos livros são diferentes e não creio que os leria sob o mesmo olhar e humor. O Crime e Castigo me pedia mais concentração, serenidade e temor. O Conde de Monte Cristo era meu presente aguardado, esperado, era uma diversão sincera, meu tesouro particular.
Infelizmente, creio não ter conseguido realmente exprimir a diferença que os senti ao ler, mas senti e, no fim, é o que importa.
Senti a religiosidade de Dumas e crítica discreta de Dostoiévski.
Senti tantas emoções que quase chorei...

Samsara.

Ainda guardo em mim cicatrizes e dúvidas,
mas não vejo mais motivos para alimentá-las.
Meu fantasma sucumbiu,
ou está plenamente adormecido.
Ainda escuto o grito de seu último suspiro e a ofensa que me dirigiu,
como quem ignora as feridas que causou.
Vagueia por meus sonhos ainda, seu último momento
Afinal, dediquei-lhe tantas horas
Amei-o mais que ele próprio
Acreditei em suas convicções infantis
Duvidei de sua sanidade
Odiei-o mais do que me via capaz
Desprezei-o o quanto pude
Repudiei sua presença em prol da minha
E por fim, desejo-lhe um adeus sóbrio.
Desejo-lhe que parta em paz
Com suas mágoas e sua passividade
Pois agora, tenho força suficiente para lidar com qualquer fantasma.
Inclusive ele.