Eu não a conheço.
Não sei nada sobre ela
Não conheço nem mesmo a cor dos seus cabelos.
Talvez sejam ruivos para lembrar o fogo.
Ou negros, para imitar a noite.
Talvez tenham aquele toque de queimado do sol
Pois toda nordestina o tem um pouco.
Sei que tem olhos grandes para devorar o mundo.
Não grandes como o lobo mal.
Grandes como a lente de uma câmera que nem sempre obedece seu fotógrafo.
E tem um jeito de menina nas bochechas
Que é traído por sua forma de falar.
Escuto sua voz grave que não conheço.
Imagino-a grave porque a tenho madura.
Mas não a conheço.
Não sei nada sobre ela.
Desconheço sua altura, seus desejos, seus medos, seus sonhos.
Desconheço mesmo seus amores.
Mas a desenhei com pele de rapadura.
A vejo correndo pelos campos nordestinos
Seja seca, seja verde
Porque ela tem poesia dentro dela
Se é por isso a rapadura?
Não, a rapadura é pela luta.
Então conheço a luta?
Eu a deduzo por sua blusa e bandeira.
Já falei dela uma vez.
Ah, não, só pra esses ouvidos que se perdem no tempo
E pra quem falo quase tudo.
Porque o retrato que fiz dela não cabe a todos
E o lugar que a guardo não é alcançado por palavras
pois foram as palavras que a levaram para lá.
Ao invés de moléculas, seu rosto e seu corpo são feitos de letras
Sua respiração são sons que vão direto ao coração
E seu retrato é mutável como uma nuvem ao vento.
Se um dia a conhecer, não sei o que direi.
Nem sei se ela achará estranho meu abraço desengonçado.
Não sei nada porque não a conheço e se a conhecesse
talvez a conhecesse menos ainda.