sexta-feira, 19 de junho de 2015

Cartas não enviadas

Há quanto tempo não te escrevo? Parece muito tempo. Não sei mais que cara você tem. Não sei mais o que sentiria se te encontrasse na rua.
Será que você faria como da última vez, ia me dar um beijo na testa e seguir seu caminho sem me dizer uma única palavra como se aquele gesto fosse um texto inteiro?
Acho que sim, porque você sabe que não deixo passar, que não vou deixar você seguir realmente em silêncio.
Às vezes, fico me perguntando como podemos nunca ter nos esbarrado. Sei que a cidade é grande, mas não tão grande. Fico me perguntando o que está havendo, como estás.
Então te esqueço completamente.
E permaneço assim, sem lembranças.
E aí você surge do nada na minha caixa de e-mail e me pergunto se você é você.
Deve ser só um fantasma querendo assombrar. Afinal, você nem existe.
Boa noite.

Atrações e Repressões

A sala com decoração de madeira e o ambiente a meia luz, tão requintado e sofisticado que Angela se sentia como personagem de um filme, com sua sidra na mão, como se bebesse. Era mais um efeito decorativo para dar um pouco de requinte a uma mulher que tem tão pouco. Desistiu, estava sufocada de lembranças. Saiu para a varanda tomar um ar.
- Está fugindo da multidão?
"Na verdade, fugia de você também".
- Um pouco.
- Havia esquecido o quanto você é incrível.
A mulher que sempre tinha uma palavra na ponta da língua, dessa vez ficou em silêncio.
- Sempre me chamou atenção como você não tem necessidade de ser como elas.
- De ser como a sua esposa?
Os dois se encararam por um tempo.
- Nunca vai me perdoar?
- Não tenho pelo que te perdoar. Eu entendo. Entendo você. Entendo ela. Entendo tudo.
"Menos o que acontece entre nós quando nos aproximamos".
- Eu sei que você não vai acreditar ou que parece mentira, mas o que você fazia eu sentir nunca ninguém me fez sentir.
- Não quero falar disso, Iago.
- Tudo bem.
- Você nunca foi de tantas palavras.
Ele sorriu e aquele sorriso doeu nela.
- Queria que você soubesse que eu não menti.
- Olha, eu concordo com você. Concordo que não éramos para ficar juntos. O que temos é pele _ e parecia sim que todo seu corpo o chamava, mais forte que um imã_ amamos outras pessoas. Não tenho raiva de você. Tudo bem?
- Tudo bem.
- Felicidades, Iago.
- Felicidades, Angela.
E ele entrou para que ela ficasse novamente com seu conhecido silêncio, mas dessa vez, com algum vazio também.