sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

É sempre uma questão de fé

Há quanto tempo não te escrevo? Já nem sei. Tu sabes ainda menos.
Imagine a surpresa quando te encontrei em meus sonhos depois de tanto tempo.
Todos os sonhos que tive contigo foram expressões da minha dor, menos esse. Menos o de hoje.
Ainda lembro-me da porta fechada que via em meus sonhos, a porta que eu sabia que tu estavas atrás e que simplesmente esse conhecimento feria-me a alma.
Desta vez, contudo, foi um sonho limpo de dor, de raiva, de qualquer sentimento além da mágoa que carrego junto às minhas cicatrizes.
Eu estava na praia, olhando o mar, clamando o sol, então resolvi ir visitar parentes que moravam ali perto. Grande a surpresa quando você entra, ficando logo constrangida ao me perceber presente.
O mundo, como sempre, endurece à sua presença.
Então você continua o que estava fazendo, desmontando os equipamentos de som junto a dois rapazes, um deles de barba.
Você percebe meu olhar desejando que saia, que se retire, que suma, que evapore, que não haja sequer vestígios da sua existência. Não há raiva nesse desejo, não há dor sequer, somente um desejo de paz. Que cruel de escrever, que cruel de admitir, mas é isso, era o que eu queria, que você não estivesse ali, nos meus sonhos, que você nunca estivesse estado sequer na minha vida.
Então você pega o celular e guarda-o rapidamente.
Meu celular vibra e vejo que é uma mensagem sua. Surpreendente. Acho que a primeira em tantos anos.
É o que chamam de meme. É o que chamo de selo.
Trata-se de um símbolo estranho, correntes quebradas e um caminho com pegadas. Então há um mensagem embaixo. "Segui em frente. Hora de você seguir também".
Meu primeiro e sincero pensamento: como acreditar? Como acreditar em algo que acreditei tantas vezes? Como acreditar que dessa vez, diferente de todas as outras, você realmente seguiu em frente?
Eu despertei.
E uma frase ressoava na minha mente. Eu não preciso acreditar.
Por que então registrar esse sonho aqui, nestas palavras?
Por dois simples motivos. Primeiro, sua ocorrência ainda representa minha prisão, o quanto sua imagem, nome e presença tem poder sobre mim e sobre as cicatrizes que carrego. Segundo, porque me senti mais perto de lembrar que não preciso acreditar em você.