terça-feira, 12 de outubro de 2021

Suspiros

Mesmo nos momentos de maior sanidade, encaramos a loucura em nossos corpos. A loucura pode estar manifesta em nosso corpo, pele, olhos, lábios, língua, unhas, mente ou coração.
Ah! O coração! O músculo de movimento involuntário com tão pouca autonomia a quem é atribuída tamanha simbologia

Velhos amigos, mas nem tanto

 As mesas espaçadas e as luzes incandescentes, coloridas, enfeitando o ambiente como se fosse festa junina. Ao ar livre, cercados por árvores e gramas e casais e aquele amor idealizado. Entre eles, o meu. Sentada ao lado da pessoa que eu escolhi e que me escolheu. Não nos olhamos nos olhos mas nos tocamos frequentemente. Perna encostada na perna, mãos que se acariciam furtivamente.

Então, entre meus devaneios sempre frequentes, quando meu olhar atravessou a multidão quase que por acidente, encontrei teu sorriso direcionado aos teus filhos. E o sorriso dela sempre livre entre as bochechas carnudas.

Você estava feliz e sua felicidade me alegrava e me doía. Doeu pensar que poderia ter sido nós dois. Mas será que poderia? Será que essa roupa me vestiria? Não me parece servir. Parece aquela sensação de quando você assiste um filme de ficção e pensa, "minha vida poderia ser assim", mas no fundo você sabe que não poderia porque precisaria que você fosse outra pessoa, no caso, eu precisaria ser outra pessoa.

Foi bom ver seu rosto, tão perto, tão longe e tão real. E antes que qualquer outro pensamento se formasse, eu acordei. Despertei com o corpo dolorido e a bexiga cheia. Fora um sonho. Tudo fora um sonho. Sonhar com você depois de tanto tempo pareceu estranho, nostálgico e tão significativo.

Foi bom ver seu rosto, porque pareceu, mais do que nunca, que pude ver algo dentro de mim.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

A raiva e o equilíbrio

A alegria e a tristeza. A saúde e a doença. O prazer e o desgosto. Yin e Yang. Dualidade. Antônimos. Maniqueísmo. Estamos sempre procurando opostos, compreender o um conceito por seu confronto com outro conceito. Construir significados de presença, pela sua ausência e vice-versa. Senti-los.

Qual seria então o antônimo da raiva? A paz? A tranquilidade? A serenidade?

O que é a raiva afinal? Um gigantesco monstro verde capaz de destruir cidades mas que nós guardamos por baixo da nossa pele até que ele rompa? Um poder gigantesco capaz de transformar uma criança em um macaco gigante? Os dentes afiados de uma fera prestes a atacar? Uma voz interna que pode ser caracterizada por um nada simpático personagem vermelho que lança chamas de sua cabeça? Um dos sete pecados capitais?

Eu nunca atribuí à raiva, um conceito, mas sempre uma sensação. Um fogo interno que consome tudo o que vê pela frente, inclusive racionalidade, ponderação, empatia. Uma força que domina a boca e cega os olhos e, em alguns casos, toma-nos o controle das mãos. Descontrole.

Se há alguns anos me perguntassem o que mais me incomodava em sentir raiva, eu responderia: não me sentir eu mesma. O que seria uma total mentira. O que mais me incomodava na raiva era a crueldade. Era saber que em um acesso de ira, eu poderia ferir irremediavalmente alguém que eu amava atingindo-lhe seus pontos fracos com palavras mais afiadas que katanas. Como confiar em si mesmo?

Hoje, continuo compreendendo a raiva como um fogo, como uma energia que nos consome, que pode ser utilizada para vencer inércias ou para construir o caos, depedendo de como você a encare. Contudo, hoje, também compreendo que a raiva pode ser algo necessário. A raiva pode ser um escudo, uma solução, uma defesa às agressões do mundo ou do outro, porque não. Também podemos usar fogo para acabar com incêndios. Podemos usar a raiva para impedir que nos batam. Podemos usar o calor para cauterizar feridas.

Parar de enxergar a raiva como algo que deve ser evitado foi libertador, mas olhando agora, parecia uma resposta tão óbvia. A raiva é costumeiramente associada ao nosso lado mais animal e, olhando a natureza, ela usa a raiva como proteção, principalmente contra esse bicho homem que a ataca sem racionalidade alguma, mesmo não estando com raiva.

Continuo sem saber se a raiva é um antogonico da serenidade, mas já a compreendo como parte de nós, tão entrelaçada às demais emoções que suprimir indiscriminadamente a raiva pode ser tão ou mais perigoso quanto deixá-la emergir sem cuidado algum.

No fim das contas, a palavra é Equilíbrio.

domingo, 6 de junho de 2021

Angústia

Se o espelho fosse um portal
Para as metáforas da própria alma
Seria uma ferramenta do bem ou do mal?
Seria capaz de transformarmo-nos em agalma?

Se eu encarar de frente minha própria angústia
Poderei varrê-la como poeira e vento?
Ou estarei entregue a caristia
Sob o frio e o relento?

O peito se enche de ar
Mas a respiração não se completa
Pode-se, então, no próprio eu se afogar?
Sobreviver, respirar, emergir, torna-se a meta

Eis o caos que forma a vida
Um dia, é alegria
Outra noite, é tristeza
E hoje, o que é? Melhor nem saber.

domingo, 31 de janeiro de 2021

Carta à histeria

 Acordei naqueles dias em que você não quer ter 'papas na língua'. Mas eu tenho, eu sempre tenho. Sempre jogo dentro de um fosso no meio do peito metade, ou mais, dos desaforos que gostaria de dizer.

A verdade é que eu nunca soube dizer adeus. Todas as pessoas que escreviam comigo na adolescência já não alimentam os mesmos blogs. Cá estou eu com o mesmo e não tenho sequer vontade de ter outro. Não é que eu continue me reconhecendo enquanto individuo em cada uma dessas palavras já jogadas na tela, mas reconheço que o que sou é resultado do que fui e gosto de olhar para o passado para refletir sobre o presente.

E hoje, diante da sua ou da minha histeria, me canso. Canso ao ver que hoje repete o comportamento que apresentou quando nos distanciamos há alguns anos. Uma pena porque estava sentindo uma forte conexão entre nós de novo, mas não era uma sintonia. Você queria uma dinâmica e eu estava feliz com outra dinâmica. E, como sempre, me alimenta a sensação de que não era outra dinâmica que você queria, mas outro um outro eu. Passa pela minha mente um pensamento de que é isso, você está sempre esperando que os outros sejam mais o que você espera que eles sejam e menos o que eles são. Sempre desrespeitando quem eles querem ser.

Amizade sempre foi um ponto tão sensível para mim e agora a única coisa que me ressoa na cabeça é: "precisa mesmo ser um esforço?". Uma frase tão simples dita por alguém que nem se tem vínculo de amizade.

Eu tenho tanto carinho por pessoas que não sinto que me cobrem ser outra pessoa. Será mesmo que vale a pena gastar tanta energia em alguém que não te aceita como você é?