segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Uma carta a pedido

 

Uma vez, em aula de inglês, me explicaram que o pensamento só é expresso em duas formas: imagens e sons. Eu acho que essa explicação tão básica resume de forma impressionantemente importante o desenho. As palavras nada mais são do que a junção da imagem e do som. Atribuímos aquela imagem um significado e um som pseudo universais, já que cada pessoa tem sua própria linguagem.

E assim como cada pessoa tem sua própria linguagem, tem sua própria relação com o desenho. Por muitas vezes, resumimos nosso “desenhar” ao desenhar letras. Mais recentemente ainda, nem isso, usamos o computador, como estou fazendo agora, para fazê-lo.

Minha relação com o desenho talvez seja aquilo que não é o comum ou o incomum. Quando pensamos em alguém que desenha, costumeiramente pensamos em pessoas reproduzindo imagens específicas, como a famosa cesta de frutas. Eu, particularmente, nunca desenhei uma cesta de frutas. Eu raramente desenho o que está na minha frente, provavelmente o ambiente que mais fiz isso foi exatamente o curso Desenhar para Viver.

Eu não consigo falar do desenho sem explicar como sinto minhas emoções. Pensamentos e emoções são tão misturados, como uma enchente de água desordenada, que parecem que vão transbordar a qualquer momento. O desenho sempre foi uma válvula de escape. Parece que ao movimentar minha mão, ao concentrar meus olhos, eu dou a esse rio de águas turbulentas uma oportunidade de saber para onde ir. Veja só, o destino não é o que estou desenhando, é outra coisa. É como se o desenho fosse somente uma ferramenta, um calmante imediato. Desenho olhos, bocas, rostos, mãos, sapatos, perfis, enquanto penso em um problema, uma decisão, qualquer coisa.

Não tenho técnica, nunca estudei desenho além de uma disciplina de 6 meses muito mal aproveitada na faculdade. O que eu sei de desenho aprendi olhando minha mãe, ouvindo-a conversar e, obviamente, rabiscando.

Sempre disse que um dia ia aprender a desenhar. Sempre falava que eu queria ser capaz de transbordar essas emoções em uma folha de papel de forma representativa. Porque, sinceramente, eu não consigo. Por mais que eu tente, o desenho nunca consegue expressar o que quero expressar. Nunca chega lá.

Então, ganhei o primeiro módulo do curso. Ganhei sim, de presente. E aquele se tornou um espaço semanal para desenhar. Não para que o desenho fosse o coadjuvante dos meus pensamentos, mas o protagonista.

A técnica dada nas aulas é básica, afinal não é um curso profissionalizante. Mas me ajudou a repensar minha própria forma de desenhar. Eu gostava do tentar também. Tentar desenhar um rosto dentro de um círculo. Tentar desenhar uma máquina de cartão e depois transformá-la em um cortador de grama. Tentar expressar a raiva e a calma. Tentar fazer um desenho que você olhe e pense, sim, eu desenhei isso.

E como tudo na vida, tentar também significa descobrir. Há quem pense que você está descobrindo o quão medíocre você é. Mas veja bem, se estivermos sempre pensando na mediocridade, fugindo dela moraremos nela. É preciso treino, tempo, dedicação e vontade para ser algo mais do que a Moda, que na estatística é valor ou elemento que mais se repete em um conjunto de dados, sendo uma medida de tendência central útil para identificar padrões ou preferências.

Então nessa jornada, eu descobri o carvão, por exemplo. Eu adorei pintar com ele, desenhar com ele. Adorei misturar os materiais. Adorei usar lápis de cor e aquarela.

Mas sabe uma coisa que somente o curso poderia permitir? Ver outros trabalhos. Quando o professor passa uma tarefa e você vê como cada um a enxergou de um modo. Uma capa do Hibisco Roxo sendo desenhada como realmente um Hibisco e o desenho ficar tão belo que você fica olhando para ele como quem sabe poderia mergulhar. Ou em uma aula de perspectiva uma pessoa misturar trabalhos manuais e pintura e fazer diversas montanhas coladas uma na outra.

Eu sempre vi o desenho como uma forma de expressar quem você é. Há aqueles que não negam seu perfeccionismo, sempre buscando as proporções perfeitas, ou aqueles que simplesmente saem da caixinha. E há aqueles que nem mesmo tentam, pois como o desenho não será igual a imagem em suas cabeças, ele nunca estará altura de suas mãos, do lápis e do papel. Eu respeito quem não quer desenhar, seja por medo, seja por não gostar, porque somos diferentes e o mundo seria um tédio se fossemos todos iguais. Mas eu tenho medo de um dia me tornar uma dessas pessoas.

Ousar riscar um papel e ver o que acontece, que é a, para mim, a verdadeira proposta do curso, é um ato que todo ser humano deveria experimentar. Eu espero nunca parar de desenhar. Sendo bem clichê, porque é isso que sou. Desenho é expressão e expressão é vida.

Já dizia o filósofo: “Penso, logo existo”. Se você pensa, cadê o seu pensamento?

domingo, 23 de março de 2025

O Espelho e o Tempo

Quando a olho de perto
Vejo seus traços delicados tornarem-se mais firmes, mais rudes, mais severos com o mundo
Vejo seu tom se abrandar
Vejo surgirem linhas no seu calmo rosto
Vejo sua pele mudar de cor
Vejo manchas surgirem como a pintar uma tela
Vejo o branco surgir no ébano
Vejo o cansaço nos seus olhos

Quando a olho de longe
Percebo mudanças em suas vestes
Percebo seu corpo diferente
Percebo seu adeus aos saltos
Percebo o abraço ao conforto
Percebo que a pressa de seus movimentos diminui
Percebo o relógio do pulso a desgatar
Percebo que não há dor no seu caminhar





sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Adolescência

Era mais um dia chuvoso naquele verão escaldante, em que o tempo parecia mais confuso do que a emoção de um adolescente.

Larissa olhou pela janela tentando adivinhar se naquele dia faria Sol ou se seguiria nublado. Apostou no Sol, não porque as nuvens pareciam que o dia seria brilhante, mas porque ouvira o pai dizer que queria que chuvesse de verdade para lavar seu carro.

A jovem então pegou a mochila e correu para a escola, andando enquanto prestava atenção em todos os sons. O som dos seus sapatos sobre a calçada, os carros que passavam, as pessoas do outro lado da rua e se alguma bicicleta ou moto estava na proximidade.

No ambiente urbano, é necessário sempre manter-se alerta, a qualquer momento, podem decidir que sua mochila devia ser de outra pessoa.

Larissa chegou à escola animada porque teria aula de História. Adorava aprender sobre o passado e a construção da civilização. Na verdade, parecia uma aula de fofoca sobre pessoas que já morreram, como no dia em que a professora deu aula sobre como houve um movimento popular fazendo piadas com a rainha Maria Antonieta.

A jovem achou a situação inegavelmente parecida com os linchamentos virtuais dos tempos modernos, com a exceção que a rainha terminara realmente morta.

A verdadeira conclusão milagrosa que aquela adolescente aprendeu com a aquela história, não foi que os séculos passados pouco tinham mudado em relação aos tempos atuais, mas que adultos e adolescentes tem mais semelhanças do que sua ansiedade de envelhecer lhe apontara.

Por isso, naquele dia, Larissa estava mais leve. Ironicamente, Larissa percebeu, que somos todos crianças e, por isso, nossos erros não devem ser tão profundos e nossas dores tão delongadas. Percebeu, que deveria pensar menos nos espinhos que carregava, nas palavras ácidas que lhe dirigiam, e mais nas conquistas e nos raios de sol que conseguia ver.

quinta-feira, 21 de março de 2024

Um desabafo enxaquecoso

 "O inferno são os outros", e uma hora você será os outros de alguém.

Amanheci o dia com essa frase aparecendo em uma rede social, não poderia ter sido mais acertiva. Prevendo tudo o que viria.

É difícil para quem sangra ver que em suas mãos está o sangue de outra pessoa.

É difícil para o teimoso reconhecer que a teimosia do outro pode ser uma reação a sua teimosia. Fica sempre a questão, quem começou?

Temos sempre uma autoimagem nossa muito deturpada, mas nem todos conseguem perceber isso. Eu tenho uma lista de pessoas com quem eu não discuto. Não porque elas são péssimas de discutir, mas porque eu sou e elas não sabem lidar.

Quem sabe lidar com meu jeito de discutir, adora, inclusive. Quem não sabe, parece que se sente em uma piscina de espinhos. Extremos. Parece que ser um extremo é também tocar no outro suas extremidades.

E hoje, essa lista cresceu mais um pouco.

"Você nem se importa", disse ela depois de dizer que estava decepcionada. Quase me pergunto se então a intenção era me ferir. Mas não vou me fazer esse questionamento, porque respondi a verdade. Estou aceitando a decepção e as falas porque não acho que existe algo que eu possa dizer para mudar a opinião. Quando alguém finca o pé, ainda mais uma pessoa teimosa que acredita na própria razão, dificilmente muda de opinião.

Por que me desgastar? Ainda mais com algo que me fere?

No fim, mostrei minha dor porque achei que precisava mostrar, mas não mudou minha decisão. É mais um nome na lista das pessoas com quem não discuto. Que vou aceitar resignadamente o que disser a não ser que me sinta em risco.

E então, me esforçar para sair de lá do jeito que eu quero e para onde eu quero ir.

É o que tenho que ter em mente.


sábado, 30 de dezembro de 2023

Das cartas não enviadas.

Hoje, é um dia de sol, talvez eu devesse ir à praia viver a simplicidade de um ser humano. Seria mais simples e mais feliz.

Mas faz alguns dias entrei novamente no meu ciclo de reflexões e tristezas. Talvez seja só cansaço. Talvez sejam algumas dores que precisam transbordar.

Nisso, senti vontade de escrever-lhes uma carta. Faz muito tempo que não as escrevo porque faz muito tempo que compreendi que não vale a pena, minhas palavras, sejam escritas ou pronunciadas, não tem valor, não são compreendidas.

Vocês sempre dizem que me conhecem há muito tempo, duas décadas, quase três, mas a grande é verdade, é que em todo esse tempo, vocês nunca pararam para me enxergar. Talvez envoltas demais no próprio egocentrismo tenham sido incapazes de compreender que algumas das minhas atitudes não eram sobre vocês, eram sobre mim. E embebidas demais em seus próprios preconceitos, exatamente por causa do tempo que nos conhecemos, foram incapazes de me REconhecer.

Tudo o que eu dizia tinha uma resposta de refuta quase que automática, ao ponto que eu me perguntava às vezes se vocês ouviam ou refletiam sobre o que falavam.

As falas mais secas, às vezes, me pareciam as mais sinceras, porque dali se via que nossos encontros viraram somente um protocolo do tempo. Por isso, quando a primeira me descartou em uma mídia social, a descartei em outra mídia social. Não preciso mais.

Não preciso mais do desconforto.

Eu acho que eu só queria ser vista e receber carinho, saber que se um dia eu quebrasse, teria alguém para juntar meu cacos.

Foi um susto perceber que o que eu esperava de vocês é que me apontassem as rachaduras e dissessem ao final: quebrou porque era fraca e dramática.

Mas foi também libertador, porque ninguém além da própria pessoa conhece o tamanho de sua força.

Hoje, nesse dia de sol em que dentro de mim está nublado, eu sinto que precisei escrever essa carta.

Mais uma carta não enviada para aquelas que matam fadas.


terça-feira, 22 de agosto de 2023

Obviamente.

Enquanto tento me despir de quem eu era, tirar peça por peça do que construí e de quem escolhi ser para me reconstruir e me (re)transformar, chamam minhas lágrimas de automartírio.

Talvez o seja. Quem sabe. A dor que se passa no corpo é tão mais fácil de entender do que a dor da alma.

Lágrimas salgadas quando tocadas por peles sensíveis ardem a pele, por isso, nem todos são aqueles que tem coragem de abraçar quem tem chora para lavar a alma ou que sua para fortalecer o corpo.

Estranho escrever algo que parece tão triste quando me sinto tão bem, quando acho que quase todas as peças já foram tiradas e a carne viva que deixei já está quase todas seca e lavada das lágrimas que derramei ao longo do último ano. Deve ainda ter pedaços da carcaça que vão cair dolorosamente quando eu estiver desprevenida, mas obviamente, não será mais uma surpresa.


sábado, 12 de agosto de 2023

Uma página de diário

 Bom dia querido diário, pediram que eu voltasse para suas páginas, que deixasse que as linhas se fizessem livremente da minha mente como quem escreve o tempo. As pessoas ao meu redor acham que eu já faço isso. As pessoas acham que já falo tudo o que penso, que já expresso todos os meus sentimentos e pensamentos e quanto mais elas dizem isso, mais me canso delas.

Tenho cansado das pessoas como nunca cansei antes. Antes eu as queria. Eu amava as pessoas, eu as queria perto, queria amar e cuidar das pessoas. Queria sorrir e ser feliz com elas. Agora, elas tem me cansado. Olho as agendas lotadas tentando marcar compromissos que antes eu tanto me esforçava para estar e penso: tomara que não dê certo. Às vezes, até demoro de propósito a responder uma mensagem na esperança que dê errado.

Escuto as coisas e as vejo de outra forma. Escuto frases como: "É ego ferido", e penso: "como seu ego é frágil para pensar que o outro está com ego ferido". Escuto alguém dizer: "elas brigaram porque trabalhar com mulher é difícil" e penso: "como você pensa mal de mulheres". 

Às vezes, tudo o que eu queria era pensar menos. Que lindo seria se tudo o que tivesse na minha cabeça fosse só o que foi dito.

E no meio disso tudo, me pergunto, isso é sofrimento?