sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Móvito




Esse conjunto de células que se prende ao meu corpo
E que não sei se está vivo é meu?
Ou não é meu?
Se é teu Estado, que me toma sempre para si,
Porque não o toma para ti?
Tome-o agora. Eu dou-te.
Infelizmente, ao dar-te, ele não mais existe
Por que sem mim não vive
o que não se sabe se vivo estava.

Condenas a mim por não o amar
Mas tu não o amas também
Abandona-o a sua própria sorte
Banhando-o com o esgoto das calçadas
Alimentando-o com as pedras brancas de euforia
Dando-lhe um teto que não é liberdade
Aplicando-lhe um valor capital por sua cor e sua idade
Que lhe vale ter um Estado que é dono
Mas não é pai.

Condenas a mim dizendo que carrego o pecado
Esqueces tu
De todas as mulheres que como eu morreram
Na cama de sangue.
E por ser criminosa
Devo arcar sozinha com toda a dor
Com todas as consequências
Daquele que em meu corpo esteve
E por ele foi rejeitado.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Revisitando o passado

Nunca nos demos a real oportunidade de falar sobre nós. As coisas simplesmente aconteceram.
Já nos cruzamos na rua algumas vezes depois dos episódios que nos marcaram, em uma delas deu-me um beijo na testa e eu brinquei com você normalmente, apesar da sua ansiedade aparente. Em outra, ignorei como se não o tivesse visto. Você também me apareceu no retrovisor, simbolicamente, falando ao celular enquanto dirigia, eu ri como quem olha um passado a que não se pertence.

Às vezes, pergunto-me como seria um novo encontro, seria aquela coisa de dois estranhos se cumprimentando? Ou seria algo mais natural e amigável?

Não me demoro nesses pensamentos, não porque me machucam, não porque me nostalgizam, mas porque eles são curtos, curtos como era o que sentimos.

Nunca negarei o que senti por você, o que nego, porém, é o você. O homem por quem me apaixonei e alimentei essa paixão, confesso hoje acreditar que nunca existiu. Tinha seu rosto, seu nome, seu corpo, seu cheiro, seu toque, tinha inclusive várias de suas fraquezas, mas era muito mais homem do que você se mostrou ser, mais digno, mais fiel, mais amigo, mais verdadeiro, mais forte. Não o culpo, porém, sei, que acima de tudo, a culpa foi minha por acreditar na força de quem quer ser fraco.

Fico feliz, contudo, ao ver que, apesar das marcas que nos fizemos, quero a você sinceras felicidades.

Abraços


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Através dos seus olhos

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Ela não é minha paixão ou o amor da minha vida.
Ela é parte de mim, como um reflexo em um espelho.
Não estão lá refletidos todos os meus ângulos,
mas posso me apresentar nu.
Sabendo que mesmo que doa o que vejo
É parte de mim que ali fala.

Não há turbulência.
Tampouco calmaria.
É somente vida.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A dançarina

Na penumbra daquela sala, as palavras corriam soltas como se não houvesse como agarra-las.
Dançavam ou se falava em dança, não lembro bem.
E aquele a quem se confidencia o reflexo de si, confidenciava o interessante contraponto entre o balé clássico o moderno, como quem contrapõe o equilíbrio e a queda.
Palavras são imagens, não há dúvidas, mas naquele momento, as imagens que se fizeram à mente foram de duas mulheres, dançando diante de um espelho que não lhes mostrava seu próprio reflexo, mas uma a outra.
A bailarina com seu coque impecável, com seu colã branco e sua saia de tule e dançarina com uma macacão preto e descalça.
Ambas ergueram-se sobre a ponta dos dedos e correram sobre as respectivas salas. A bailarina planava no ar, enquanto a curvatura perfeita de seus pés desafiavam a anatomia. A dançarina corria livremente, mas com tamanha leveza que parecia não haver corpo, somente alma.
A bailarina parou e ergueu uma de suas pernas ao rosto para depois inclinar-se ao solo como quem reverencia.
A dançarina parou e jogou-se a terra como quem dela veio e um dia voltará.
Uma delas entregue a ideia de equilibrar-se e outra a de jogar-se, mas ambas carregando a arte, a poesia e música em cada movimento e ambas sendo uma única mulher, uma versão de um reflexo.
Uma delas do lado humano do espelho e a outra do lado selvagem. Uma só mente, um só corpo, duas danças em liberdade.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Relações Líquidas

Estava pensando sobre a expressão: relações líquidas.
De onde terá surgido? Quem a terá elaborado? Em qual papel ou teclado terá sido concebida?
Não sei, pouco importa, acredito.
O que importa é o sentido e a força da palavra...
Líquidas porque possuem vazão em nossas vidas?
Líquidas porque passam e carregam sedimentos nossos enquanto deixam a terra molhada?
Líquidas porque são superficiais?
Líquidas porque quando você tenta agarrar, escapam-lhe pelos dedos?
Líquidas porque parece aos ouvidos de uns o antônimo de sólidas?
Líquidas porque não nos sustentamos em pé sobre elas?
E se fossem líquidas porque se adaptam a qualquer forma, a qualquer momento, a qualquer tempo...
E se...

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Hoje,

A incrível saudade de que estas páginas em branco são capazes de me causar.
Todos os dias, dedilho meus dedos pelo teclado. Seguem firmes e, ao mesmo tempo, insólitos, digitando palavras que de tanto significado, não lhes cabe emoção.
Enquanto me prendo às constantes demandas do dia-a-dia, afasto-me dessas páginas em branco que tantas vezes foram tudo o que eu tinha.
Hoje é um dia de paz. Um dia em que as coisas podem fazer sentido sem nem mesmo pensar muito sobre elas.
Talvez façam sentido porque não penso muito sobre elas. Hoje, elas simplesmente são.
Parece, por isso, haver tanto o que escrever, mas penso que é melhor não o fazer.
Por hoje, vou fingir que as páginas em branco são meus olhos fechado vendo paz, ou vendo um morro coberto por neve e um lindo pássaro branco sobrevoando-o. Essa era a minha imagem predileta durante a meditação...

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Páginas viradas

E se eu cruzar com você na rua?
E se você não me reconhecer?
E se eu não te reconhecer?
E se nos reconhecermos e fingirmos que não?
E se esse encontro doer?
Quantas linhas de falsas poesias escreverei sobre o romance que não tivemos?
Em quantas poesias te tornarei eterno?
Não te amo. Ponto.
Fácil concluir. Racional. Sábio. Sincero. Correto.
E o que sinto por ti?
Passado.
Sinto que amei o que sentia por ti.
Sinto saudades do que sentia.
Sinto vontade de sentir de novo.
Mas não por ti, confesso.
E estás feliz.
E estou feliz.
E nada sentimos além dessa felicidade.
Eis a mágica do tempo.
Porque a mágica da vida foi sentir. É sentir.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A Outra

Eu tentei.
Contra vários conselhos.
Contra vários boatos.
Contra a fé de tantos.
Eu tentei.
Que digam os tolos que não, mas
Eu tentei.

Tentei ser sua amiga.
Ofereci minha mão
Ofereci minha dança
Ofereci minha sinceridade

"Cada Um no seu quadrado
E o Passado
Onde ele quiser"

Foi sua resposta
Foi sua rejeição
Agora, corres atrás do Passado

Não quero mais ser sua amiga
Quero menos ser sua inimiga
Mas devo admitir
Eu cedi
Não a quero mais por aqui


segunda-feira, 16 de maio de 2016

"Afasta de mim este cálice"


Comentei contra esta coluna, contra este comentário, contra esta ideia. Eis a resposta de um colega:

"Não seria caso de muito ódio, ficar só criticando as pessoas, desarmonizando-as? DEixemos de ver defeitos, foquemos em soluções integrativas, em vez de degradativas!"

Eis a minha resposta:

Minha solução é integrativa, colega. Que representem todas as mulheres. Que não nos taxem e estabeleçam conceitos excludentes de beleza e representatividade. Que uma mulher de sucesso não seja somente definida por seu casamento ou pelas críticas de moda, mas que seu sucesso possa ser tbm pelo seu trabalho ou pq ela não é discreta mas se posiciona bem. Marcela Temer não me representa, não por seus defeitos, mas por mim, não sou bela, não sou recatada e não sou do lar. Quero a frente desse governo mulheres de peito que coloquem nosso ponto de vista, que diversifique os pensamentos, que nosso Brasil missigenado nao seja feito por iguais e para iguais. Se isso não é ser integrativo, garanto que esse governo monocolor tbm n tem se mostrado ser.


terça-feira, 1 de março de 2016

Voando

Lucia acordou com o nascer do sol, como sempre. A luz bateu em suas asas e o vento levantou suas penas e ela abriu os olhos como quem sorri.
Espreguiçou-se, alongando todos os seus membros.
Levantou-se, então, olhou ao redor, aquele imenso jardim vazio. O lugar que ela escolhera para viver, que ela construíra.
Começou a caminhar observando cada folha, contando as folhas secas, apostando onde nasceriam os frutos e sentindo o aroma daquele ambiente.
Chegou então à sua muralha. Mas a muralha de Lucia não era um muro alto e intransponível, mas um abismo imenso que a separava de todo o resto do mundo. Este abismo, porém, a mantinha viva.
Lucia olhou para aquela escuridão e lembrou de um tempo que não mais existia, um tempo que ela não vivia naquele isolamento, mas no meio dos homens e das mulheres. Ela brincava com as crianças e conversava com as mulheres, sentia o cheiro de suas comidas e observava-os dormir, pois era quando mais belos lhe pareciam.
Então tudo mudou e, agora, aquele era seu lar. O lugar seguro que não tentariam arrancar-lhe as asas. Mas para que servem asas se não para voar?
Do que adianta ter asas e viver presa no alto de um arranha-céu?
Lucia olhava para aquela escuridão e sentia dor, nostalgia, alegria, tristeza, saudade, remorso, vingança. A única coisa que ela não sentia, eram suas asas.
Seu corpo começou a pender, ela já não tinha domínio de si, deixou-se cair.
Não sabia se caía de fato ou se mergulhava em sua solidão.
Lucia corria os ventos, os céus, os tempos.
Ela caía
Enquanto sentia o vento empurrar-lhe com toda força contra a queda e sentia seu corpo pesar como nunca pesara.
Ela caía
Enquanto sentia a dor do seu passado e de seu presente misturadas e não sabia se um dia poderia voltar a voar.
Ela caía
Por fim, suas asas abriram e ela rodopiou por aquela terra fétida, cheia de lixo, de moscas, de ratos, de venenos... Viu a água negra escorrer para o rio e suas lágrimas se misturam ao líquido como se de lá fossem e esta ideia a repeliu de tal forma que Lucia emergiu novamente.
Ela subiu o mais rápido que pode.
Não olhou para trás.
Não havia o que olhar.
Agora Lucia entendia sua solidão, era excesso de passado. Eram suas lembranças transformando-se em sonhos, dizendo que um dia poderia voltar a sentir o que sentira.
Lucia entendeu também porque podia voar, voava porque não pertencia aquele lugar. Voava porque podia voar.
Voe, Lucia!
Voe!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Desabafo amador

É cedo.
Mas também é tarde.
Olho-me como figura desfigurada de mim mesma.
Onde estou afinal?
Aqui, mas também onde não sei.
Tantas partes de mim que não consegui mantê-las todas juntas.
Tantos amores que tenho que escolher entre eles.
O dedilhar que antes tanto me acalmava, agora me parece não só distante, como torturante.
Não que não ame mais escrever, mas estou tão aquém das minhas expectativas que me gera ansiedade a folha de papel vazia.
Seria a tal pedra de Drummond? não creio.
Não parece uma pedra, parece uma enchente que ainda não sabe o que vai levar.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A Amante

Eu a amei como quem ama um amante. 
Não que a tenha amado.
Era um desses amores inventados.
Desses que às vezes a gente pergunta se até na nossa cabeça existem.
Desses que quando vem a possibilidade de acontecer, viram névoa e romance que foi lido em dias de chuva. 
Eu a amei com raiva e admiração. 
Eu a amei como quem não ama. 
Eu tentei a todo custo tirá -la de dentro de mim.
E agora que está tão perto, procuro-a aqui e já não há nada além do coração bagunçado que ela deixou ao partir.

2015

sábado, 13 de fevereiro de 2016

A uma flor flamejante

O mundo da muitas voltas. E vamos mudando com elas. É mais uma sequência de Fibonacci do que um círculo.

Eu me afastei muito do que fui, penso. E você também parece ter mudado bastante.

Nessa nostalgia do passado, nossa amizade é uma das coisas que me faz falta. Como me sentia leve e desarmada.