sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
Móvito
Esse conjunto de células que se prende ao meu corpo
E que não sei se está vivo é meu?
Ou não é meu?
Se é teu Estado, que me toma sempre para si,
Porque não o toma para ti?
Tome-o agora. Eu dou-te.
Infelizmente, ao dar-te, ele não mais existe
Por que sem mim não vive
o que não se sabe se vivo estava.
Condenas a mim por não o amar
Mas tu não o amas também
Abandona-o a sua própria sorte
Banhando-o com o esgoto das calçadas
Alimentando-o com as pedras brancas de euforia
Dando-lhe um teto que não é liberdade
Aplicando-lhe um valor capital por sua cor e sua idade
Que lhe vale ter um Estado que é dono
Mas não é pai.
Condenas a mim dizendo que carrego o pecado
Esqueces tu
De todas as mulheres que como eu morreram
Na cama de sangue.
E por ser criminosa
Devo arcar sozinha com toda a dor
Com todas as consequências
Daquele que em meu corpo esteve
E por ele foi rejeitado.
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