Tive um professor que dizia que
uma história só vale a pena ser contada se, ao virar um livro, for capaz de
sustentar-se sozinha em pé em uma estante. Sempre me perguntei se minha vida um
dia seria tão interessante a esse ponto, a ficar por caber nas entrelinhas de
uma história qualquer e se manter vívida aos olhares de um leitor mesmo que
trancafiada entre as páginas de um livro.
Ao longo dos anos, compreendi que
as histórias lidas não tem vida própria, mas somente aquela que o leitor as dá.
Ajudou-me a entender isso algumas linhas de Mário Quintana e Lygia Fagundes Telles.
Ajudou-me também um dia, quando em uma conversa no pátio do colégio, alguém
contou a vida de um escritor e definiu-o como romancista. Eis que de memória,
não me lembrei de nenhum romance do referido artista, contudo não consegui
contestar a informação, pois nada me pareceu mais real do que isto, ele fora um
romancista para a vida, não para o papel. Tratava-se, pois de Vinicius de
Moraes.
A partir de então, passei a compreender que existem românticos e romancistas. Existem pessoas que acreditam no amor e existem pessoas que criam amores. Desde a criação do conceito, pois, passei a interrogar-me: Quem sou eu?
Ainda adolescente, conheci Cazuza e a escutei "Adoro um amor inventado". Um romancista, sem dúvida. Mas será que ser romancista nos impede de ser românticos? A um primeiro momento, penso que sim. O romântico sente-se parte da história e vítima dela, encarando o amor como seu algoz e seu prêmio. O romancista delicia-se com o enredo, até mesmo a mais trágica lauda dessa história, dá-lhe um certo prazer. O romântico acredita tão piamente na história que vive que se esquece de si. O romancista está plenamente consciente do que é e de onde está. Isto não significa não poderá se frustrar, quem nunca terminou um livro frustrado que rasgue a primeira página. Contudo, penso também que tudo nesta vida é possível, quem sabe pois um romancista romântico não esteja por aí.
Há daqueles romancistas que fingem ser românticos, porque se não o forem, pensam que suas histórias terão menos graça. Inventam pois suas dores. Alguns deles acabam deliciando-se tanto com essas dores que se prendem e fazem delas sua verdadeira obra.
No final, o romancista não é um insensível. Longe de mim acusar-lhe de tamanha atrocidade, pois assim classifico quando encaro a imensidão da sensibilidade que ele pode ter. Ao contrário, talvez maior sensibilidade ainda que o próprio romântico, veja só que contradição. Ocorre, que ao romancista, tudo completa o cenário, tudo faz parte da história e tudo deve ser sentido. Ao romântico, só três coisas importam, o amado, o amante e o amor.
O romancista ama todos os seus amores, mesmo que de forma diferente, mas ama ainda mais o amor. Prende-se a ele e a todas as histórias que o mesmo pode criar. O romancista está sempre pronto para amar, pois acredita tão imensamente no amor, que é capaz de senti-lo de diversas formas. O romântico está preso em sua ideologia do amor e tem dificuldade de desmembrar-se dela e dele.
Ao longo dos anos, este conceito ajudou-me a compreender certas coisas. Inclusive "declarações de amor" que recebi ao longo da vida, muitas delas de romancistas que pensaram que bela personagem eu não me enquadraria em seus romances. Poderia eu, provavelmente romancista, ter feito o mesmo. Ter cautelosamente escolhido a um deles para criarmos juntos uma cética história de amor, quem sabe, o problema é que sempre admirei os românticos e sua imensa capacidade de se iludir. Sempre preferi homens reservados, que me pareciam uma folha em branco para escrever minha história, como se fosse, além de uma história de amor, também de suspense, em que você vai descobrindo coisas a cada dia.