Era somente uma menina em uma aula de Português, como tantas outras meninas, como tantas outras aulas. Ela refletia sobre os textos dissecando as palavras, desenhando no ar os personagens dos livros, das aulas, do nada.
Após aquela aula, sairia da sala e antes de atravessar a porta, vários alunos já teriam esbarrado nela como se fosse um mero estorvo na passagem. Então ela seguiria para o pátio em silêncio e olharia para aquela multidão inominável e procuraria, atrás da cantina, sob a sombra das árvores, o grupo de meninas que pulava corda no intervalo.
Laura aproximar-se-ia do grupo e tentaria misturar-se, mas como um organismo vivo, os anticorpos a expulsariam sutilmente. Ela sentaria na raízes das árvores e com um olhar silencioso assistiria as meninas pularem corda.
Os poetas da aula de Português diziam que a Solidão era a mãe do autoconhecimento, das ideias e da criatividade, mas será que essa era a mesma solidão que ela sentia ali, nas raízes daquelas árvores, olhando a multidão que ela não fazia parte?
Uma coisa é rejeitar o mundo e isolar-se em seu castelo, outra é sentir o mundo lhe rejeitar e esconder-se em uma caverna.
A Solidão pode ser fria, como dizem alguns poetas, ou uma Companheira Ideal, como dizem outros. Assim como pode ser feliz não ser mãe porque não se quer e triste não poder sê-lo.
Naquela aula de Português, porém, Laura não estava só, estava com um amigo que jamais a deixaria e que sempre estava disposto a receber mesmo a sua pior parte. Ele era o seu castelo dentro da caverna.