Desculpe, senhor, não sou uma boa menina.
Sim, eu digo por favor e obrigada e levanto-me para os velhinhos no ônibus. Dou passagem quando sou estorvo e sorrio quando posso.
Não, senhor, não perdoo assim tão fácil, nem tenho um sorriso guardado para os meus inimigos. Tenho em mim sentimentos vingativos e sinto raiva com facilidade. Felizmente dessa não demoro a me livrar.
Sim, senhor, eu sou capaz de amar. Amo a tantos e a tão poucos que quase choro de solidão.
Não, senhor. Esforço-me muito para ser uma boa menina, mas infelizmente não sou. Minha natureza não é dizer palavras doces ou sorrir um tempo todo. Não é acreditar no amor entre homem e mulher e ir com ele até o fim. Sou egoísta e perdida. Sou minha, tão minha, que não sei ser de outra pessoa.
Não, senhor, não tenho orgulho do que sou. Simplesmente o sou e aprendi a lidar comigo porque ninguém mais o fez, ninguém mais parece ser capaz.
Sim, senhor, compreendo que não possa amar alguém assim tão desagradável quanto eu, mas senhor, deixe-me lhe dizer, não sou boa, não sou santa, não sou nada do que me pedem para ser. Mas isso não impede de amá-lo e cuidar do senhor, agora, por favor, aquiete-se que tenho que lhe trocar as fraudas.
Não estou sendo grossa, senhora, só quero lhe cuidar.
Não, não ganho nada com isso. Por que está tão agitado e perguntador hoje?
Por que há tempos não conversa? Tudo bem, senhor, estou aqui para conversar.
Sim, senhor, vou deixá-lo pensar que sou boazinha e vou sorrir hoje só porque me pedes, mas só para o senhor, não conte a ninguém.