domingo, 25 de setembro de 2011

Esquecer para saber

Quem lhe ensinara isso, essa estranha pedagogia da desaprendizagem? Não podia ter sido Barthes...


A MENINA me disse que eu teria de esquecer o que sabia para poder ver aquilo que eu não via... Que menina? Aquela sobre quem escrevi. Caminhávamos juntos, ela me mostrava e me explicava a sua escola, na Vila das Aves, em Portugal. Eu teria de esquecer para poder ver... Quem lhe ensinara isso, essa estranha pedagogia da desaprendizagem? Não podia ter sido Roland Barthes...

Barthes, ao sentir a velhice chegando, disse esta coisa surpreendente: que chegara a sua hora suprema, a hora do esquecimento, tempo de desaprender os saberes que havia aprendido. Posso imaginar o espanto que essa declaração deve ter provocado no erudito público acadêmico presente a sua aula.

Esquecer, desaprender: são o oposto daquilo que as escolas e professores pedem aos alunos. Os professores perguntam e os alunos, se tiverem memória boa, respondem e tiram boas notas... Esquecer é o contrário: perder, abrir mão, deixar ir. E, na lógica banal da razão do cotidiano, esquecimento é sempre empobrecimento. Barthes aponta na direção oposta. Teria ficado senil?
Quem responde é o poeta T. S. Eliot, num curtíssimo-cortante aforismo: "Num país de fugitivos, aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo".

Barthes caminha na direção contrária. Ele nos conduz a um outro mundo. Suspeito que ele tenha aprendido do Taoismo. Pois é isso que está lá dito, no poema de número 48 do "Tao-Te-Ching": "Na busca do conhecimento a cada dia se soma algo. Na busca do Caminho da Vida a cada dia se diminui algo".

Esquecer é diminuir; desaprender é diminuir. Barthes não está sozinho em sua caminhada na direção contrária. Lichtenberg tinha uma ideia parecida: "Atualmente procura-se divulgar a sabedoria por toda a parte: quem sabe se daqui a poucos séculos não haverá universidades destinadas a restabelecer a antiga ignorância?".

Alberto Caeiro é de opinião semelhante. "O essencial é saber ver - Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!), Isso exige um estudo profundo, Uma aprendizagem de desaprender..." "Procuro despir-me do que aprendi, Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, Desembrulhar-me e ser eu..."

Barthes se referiu ao esquecimento como "a força da força viva". Por quê? Ele mesmo responde, mostrando que o esquecimento é um processo pelo qual o corpo "raspa" de sua pele as sedimentações operadas pelo passado, mortas, da mesma forma como o navegador raspa a craca marisca que grudou no casco do seu barco. Raspada a craca, o barco rejuvenesce.

Encantam-me os eucaliptos velhos, suas cascas duras, rugosas, grossas, escuras, rachadas. Repentinamente elas se soltam: debaixo delas surge um eucalipto rejuvenescido, casca verde-creme, lisa, sobre ela a mão desliza com prazer. Nós, humanos, para renascer, temos de esquecer -abandonar a casca velha para que a nova apareça. As cascas vazias das cigarras presas aos troncos das árvores são um passado subterrâneo que teve de ser abandonado para que o ser voante nascesse. Esse é o caminho da educação...

Mas a menina me fez pensar outros pensamentos que eu nunca tinha pensado. Eu os guardo para depois...

Rubem Alves

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Solidão


Acho engraçado quando aparece alguém tentando me ensinar a graça da solidão, ou porque ela é boa, como fazer para curti-la ou até como é ruim estar só.
Cada um tem sua opinião.
Eu tenho meus momentos, assim como muitos, porque não sou especial.
Minha infância e pré-adolescência foi mais com a solidão do que com qualquer ser vivo. Eu conheço todos os seus defeitos e todos os seus benefícios. Eu sei o que é a verdadeira solidão.
Não estou falando daqueles momentos que precisamos estar só, que escolhemos estar só. Estou falando dos momentos em que o mundo simplesmente não existe. Às vezes, isso é tudo o que você precisa, às vezes, isso é tudo o que você não queria.
A solidão, para mim, é uma mulher temperamental, a maioria das vezes, vem quando quer. Às vezes, é uma professora divina, outras vezes, é um algoz voraz, outras vezes é uma companhia somente, outras vezes beija-lhe frio.
Deixo que me ensinem, deixo que falem dela, deixo que digam como a enxergam, mas principalmente, deixo que ignorem o leve sorriso que levo nos lábios. Eu já chorei por solidão, eu já odiei o mundo por me tirar dela, mas hoje, eu reconheço, que ela mora em mim, tanto quanto eu moro nela.
O que acontece, meus caros, o que poucos são capazes de enxergar, é que nós vivemos nossas vidas, eu e ela, que não estamos sempre nos agarrando, nos abraçando, mas que ela ainda é a amiga que mais confio, porque nela, sei que encontro paz. Com a solidão, não há cobranças, esperas, desejos, traições, armadilhas, birras... ela é simplesmente como quero que ela seja, sua inconstância é a minha.
Por isso deixo que falem, porque quando falam da solidão, falam mais do que pensam de si mesmo, do que dela, como fiz agora...

sábado, 10 de setembro de 2011

Nietzsche - Humano, Demasiado Humano




Amor. - A idolatria que as mulheres têm pelo amor é, no fundo e originalmente, uma invenção da inteligência, na medida em que , através das idealizações do amor, elas aumentam seu poder e se apresentam mais desejáveis aos olhos dos homens. Mas, tendo se habituado a essa superestimação do amor durante séculos, aconteceu que elas caíram na própria rede e esqueceram tal origem. Hoje elas são mais iludidas que os homens, e por isso sofrem mais com a desilusão que quase inevitavelmente ocorre na vida de toda mulher – desde que ela tenha imaginação e intelecto bastantes para ser iludida e desiludida.