segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A dançarina

Na penumbra daquela sala, as palavras corriam soltas como se não houvesse como agarra-las.
Dançavam ou se falava em dança, não lembro bem.
E aquele a quem se confidencia o reflexo de si, confidenciava o interessante contraponto entre o balé clássico o moderno, como quem contrapõe o equilíbrio e a queda.
Palavras são imagens, não há dúvidas, mas naquele momento, as imagens que se fizeram à mente foram de duas mulheres, dançando diante de um espelho que não lhes mostrava seu próprio reflexo, mas uma a outra.
A bailarina com seu coque impecável, com seu colã branco e sua saia de tule e dançarina com uma macacão preto e descalça.
Ambas ergueram-se sobre a ponta dos dedos e correram sobre as respectivas salas. A bailarina planava no ar, enquanto a curvatura perfeita de seus pés desafiavam a anatomia. A dançarina corria livremente, mas com tamanha leveza que parecia não haver corpo, somente alma.
A bailarina parou e ergueu uma de suas pernas ao rosto para depois inclinar-se ao solo como quem reverencia.
A dançarina parou e jogou-se a terra como quem dela veio e um dia voltará.
Uma delas entregue a ideia de equilibrar-se e outra a de jogar-se, mas ambas carregando a arte, a poesia e música em cada movimento e ambas sendo uma única mulher, uma versão de um reflexo.
Uma delas do lado humano do espelho e a outra do lado selvagem. Uma só mente, um só corpo, duas danças em liberdade.

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