terça-feira, 1 de março de 2016

Voando

Lucia acordou com o nascer do sol, como sempre. A luz bateu em suas asas e o vento levantou suas penas e ela abriu os olhos como quem sorri.
Espreguiçou-se, alongando todos os seus membros.
Levantou-se, então, olhou ao redor, aquele imenso jardim vazio. O lugar que ela escolhera para viver, que ela construíra.
Começou a caminhar observando cada folha, contando as folhas secas, apostando onde nasceriam os frutos e sentindo o aroma daquele ambiente.
Chegou então à sua muralha. Mas a muralha de Lucia não era um muro alto e intransponível, mas um abismo imenso que a separava de todo o resto do mundo. Este abismo, porém, a mantinha viva.
Lucia olhou para aquela escuridão e lembrou de um tempo que não mais existia, um tempo que ela não vivia naquele isolamento, mas no meio dos homens e das mulheres. Ela brincava com as crianças e conversava com as mulheres, sentia o cheiro de suas comidas e observava-os dormir, pois era quando mais belos lhe pareciam.
Então tudo mudou e, agora, aquele era seu lar. O lugar seguro que não tentariam arrancar-lhe as asas. Mas para que servem asas se não para voar?
Do que adianta ter asas e viver presa no alto de um arranha-céu?
Lucia olhava para aquela escuridão e sentia dor, nostalgia, alegria, tristeza, saudade, remorso, vingança. A única coisa que ela não sentia, eram suas asas.
Seu corpo começou a pender, ela já não tinha domínio de si, deixou-se cair.
Não sabia se caía de fato ou se mergulhava em sua solidão.
Lucia corria os ventos, os céus, os tempos.
Ela caía
Enquanto sentia o vento empurrar-lhe com toda força contra a queda e sentia seu corpo pesar como nunca pesara.
Ela caía
Enquanto sentia a dor do seu passado e de seu presente misturadas e não sabia se um dia poderia voltar a voar.
Ela caía
Por fim, suas asas abriram e ela rodopiou por aquela terra fétida, cheia de lixo, de moscas, de ratos, de venenos... Viu a água negra escorrer para o rio e suas lágrimas se misturam ao líquido como se de lá fossem e esta ideia a repeliu de tal forma que Lucia emergiu novamente.
Ela subiu o mais rápido que pode.
Não olhou para trás.
Não havia o que olhar.
Agora Lucia entendia sua solidão, era excesso de passado. Eram suas lembranças transformando-se em sonhos, dizendo que um dia poderia voltar a sentir o que sentira.
Lucia entendeu também porque podia voar, voava porque não pertencia aquele lugar. Voava porque podia voar.
Voe, Lucia!
Voe!

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