quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Não me toque, só...

Anita não queria sentar, todas as imagens que tinha de seu corpo a pensar era largada em uma cadeira como se economizasse a energia das suas pernas para usá-la em seu pensamento.
Seu corpo, entretanto, exigiu, não para usar a energia em pensamento, mas em sentimento. Sentia-se pesada diante do momento tão recente e ficava leve com possibilidades e lembranças que quase lhe arrancavam um sorriso.
Seu sentimento enroscava-se em seu corpo como uma píton preparando-se para asfixiar a vítima, o cheiro do veneno começava a angustiá-la e mais ainda a possibilidade de fugir, que lhe era tão paupável e tão impossível.
Anita escorou-se na parede, estava completamente envolta na escuridão. Ali, naquela sala distante de todos os seus lugares, de todos os seus “pedaços”, ela era uma “estranha”. Ali, ninguém relevante a encontraria, segurá-la-ia pelos braços e levá-la-ia para um canto íntimo e confortável.
A escritora estava abertamente optando pelo isolamento e pelo anonimato, queria esconder-se de si, queria mentir para aquela cobra assassina que a consumia como um ácido corroendo a roupa do cientista desastrado que se deixou sujar.
Aos poucos, Anita deixou de ser ela mesma e tornou-se a obra prima de seus medos.
Infelizmente, seu maior medo era um contato, uma interação, um sorriso que ela havia perdido. A moça, “a criança em corpo de mulher”, baixou a cabeça e consentiu com sua maior dor.
Ela construiu e entrou em seu casulo não abençoado por Afrodite, e daquela pele tão falsamente sua, ela se fez mundo, naquela pele, ela se isolou do mundo.

8 comentários:

Marcella disse...

Refiz o final mil vezes e não fiz o que queria...

Thiago César disse...

"(...) um ácido corroendo a roupa do cientista desastrado que se deixou sujar".

essa foi a melhor!
hehe!
;)

Anônimo disse...

como o amor pode se desastrar...

CA Ribeiro Neto disse...

Muito bom o texto. Principalmente o inicio. Eu gostei do final também, deixa assim! :)


beijos

CA Ribeiro Neto disse...

marcella, depois ve o comentário que deixei no blog do pedro.

CA Ribeiro Neto disse...

Ah, esqueci de brincar: Marcella, a mulher das mesóclises!


heruheurheurh

Ramon de Alencar disse...

...
-Ela se fez Crisálida!

Paulo Henrique Passos disse...

Muito bom. Demonstra bem o quanto é angustiante negar um sentimento, mentir pra si.