quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Olhos de porcelana

Foi há muito tempo que conheci Anita Montes.
Ela abordou-me com uma sutileza única e que me chamou a atenção. Anita era uma amante da conquista, da sedução.
Passamos muito tempo juntos e, mais ainda, separados. Havia uma certa liberdade ou talvez uma falta de compromisso. Ela não me fazia cobranças, nem perguntas. Talvez aí, tenha residido seu primeiro erro.
Lembro-me de um dia em especial, talvez porque, para mim, foi o mais irreal.
Anita e eu havíamos viajado para um chalé em uma praia pouco freqüentada. Quando acordei, ela estava no peitoril da janela com um lápis e um papel.
Virou-se para mim como se adivinhasse meu despertar.
- Desenhou-me?
- Agora conheço todos os teus traços. Sei de cada defeito do teu rosto. De cada ruga do teu pescoço_ ela foi beijando a partir do pescoço, como quem escreve naquelas linhas, seus dedos acompanhavam os meus traços do outro lado do meu rosto.
O toque de Anita era como uma mágica tão sutil quanto sua sedução. talvez para não tirar totalmente a coesão de sua veia poética introspectiva com aquele ardor que vinha para me queimar e que parecia completamente externo a ela própria.
Anita para mim era irreal. Uma musa de algum escritor. Alguma poesia que se perdeu e caiu nos meus braços.
Essa certeza do seu irreal impediu-me de acreditar que ela era paupável, que eu poderia alcançá-la, amá-la.
Tinha sempre a sensação que um dia um de nós acordaria e Anita seria o vácuo do meu despertar.
Foi assim que arranhei seus olhos de porcelana.

5 comentários:

Hermes disse...

Parece ser interessante essa Anita Monte. Boa prosa. Poderia dizer que tem influxo de prosa poética, continue escrevendo.

Thiago César disse...

me apresenta essa anita ae, vah lah!

Thalita Castello Branco Fontenele disse...

Essa imagem última, das unhas na porcelana, é bem forte...

Ramon de Alencar disse...

...
-Concordo, o final foi impactante, e isso é uma marca tua....

CA Ribeiro Neto disse...

Concordo com o a marca de final impactante em tua escrita, mas o que quero ressaltar é a linguagem usada nesse texto.

Ficou muito bom como você fez para escrever introspectivamente de forma bem tranquila e gostosa de se ler.

Você é uma rainha, Marcella!
beijos