quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Ira: Que demora!!!!
Orgulho: Você sempre resmunga, devia ser mais como eu, paciente, elegante, compreensivo.
Tempo: Chegou o momento! É hora de reconhecer o Pecado que reinou soberanamente sobre os mortais, esse século.
Orgulho: Sim, o século da Vaidade. Espelhos por todos os lugares. A Avareza fez-se às minhas custas, pois o Capitalismo só vive porque eu existo. Orgulho, Vaidade. Guerras e mais guerras são travadas em meu nome. Nem creio que haja necessidade de discussão.
Ira: Claro! (grita) Por que vamos discutir quem é o Pecado de destaque em um século que a palavra guerra não é surpresa. Que pais matam filhos, que filhos matam pais, que irmãos matam irmãos, que o assassinato tornou-se somente um dado estatístico e um assunto a mais para palestras de psicólogos e psiquiatras. Mas não, tudo isso foi em nome do Orgulho e não da Ira, não é?
Luxúria: (Ri) Orgulho? Ira? Sim, vocês passearam pelo mundo. Eu o embelezei, reinei sobre ele, brinquei com ele e fiz dele meu objeto predileto. Transformei a mente de cada humano em minha oficina. Banalizei o corpo humano, espalhei a nudez e libertinagem em cada canto da terra. Oficializei o desejo como arte, a sexualidade como qualidade. Quando se vai elogiar alguém, o que primeiro se diz? Que é inteligente? Bondoso? Educado? Feliz? Simpático? Não, se diz que é bonito e caso não seja, mas seja sexy, tenha aquele algo mais... se compensa a falta de beleza. Por que? Porque eu sou amada, porque eu sou mais importante do que todos vocês.
Orgulho: Mais importante do que nós? Escute o que diz e volte a si... somos os Sete Pecados Capitais. Foram escritos livros e livros sobre nós. Mas sobre mim, minha cara, ocupo estantes e estantes. Sou a auto-biografia, o auto-retrato, o narcisismo puro. A Cirurgia plástica é um culto à minha existência e eu pergunto, quantas pessoas não fizeram ou gostariam de fazer uma cirurgia? As lentes que mudam a cor dos olhos, as tintas para cabelos, a maquiagem inteira é um culto a mim.
Gula: É mas o homem vive para comer. Em alguns países chega a 70% o número de obesos e as pessoas não conseguem emagrecer, só engordar. A felicidade começa pela boca, desde que se é um bebê. Reinei este século. Temperos, restaurantes... colesterol, diabetes e disfunções alimentares tiveram que ser combatidas como se fossem epidemias por minha causa. Enquanto a Luxúria se gaba de como falam dela, parecendo até mais o Orgulho falando, eu sou o manto de adultos e crianças, e ela só atinge adultos... Sem contar que vou além do que o garfo manda. Eu sou aquele desejo incontrolável de possuir algo... os psicólogos até atribuem a minha existência em algumas pessoas como patologia, tipo o consumismo que se tornou cada vez mais comum nesse mundinho capitalista.
Avareza: Acho que estão discutindo muito por algo simples. A Ira disse que as guerras foram por causa dela, mas não é verdade. A Ira é inimiga da razão, eu sou amante. E para uma guerra é necessária muita razão. As guerras foram feitas em meu nome. Porque dominar um país gera lucro. Pessoas suportam gente que elas odeiam por mim controlando sua Ira, porque lhes é conveniente. Eu giro o mundo. As pessoas estudam para conseguir dinheiro, as pessoas casam por dinheiro. Ser bem sucedido nos negócios é tão importante para essa civilização pecaminosa quanto ser bonito, quanto ser sexy. Eu estou em primeiro plano. Eu sou economia, política, religião. Tudo gira ao meu redor. O século foi inegavelmente meu.
Inveja: Falam todos tão bem, que quase me convencem. Queria eu falar assim. Sou tão discreta, ninguém me nota. Na verdade, muitas vezes me escondo. Diferente do Orgulho. Mas eu, eu mais do que a Gula, mais do que a Luxúria, estou em todos. Aquele bebezinho que toma do outro o brinquedo. Aquela mulher sentada no degrau escada vendo o cara interessante passar de braços dados com outra. Aquela amiga olhando quase com água na boca o vestido dos seus sonhos entrar no corpo perfeito da outra mulher. Aquele homem que vê a namorada nada briguenta do colega de trabalho. Aquele trabalhador que vê o outro ser premiado, promovido. A Igreja já não tem tanto poder como antes e sem ela, minha maior inimiga, porque lutar contra mim? Ninguém mais luta contra mim, deixam-me lá, saboreando de seus pensamentos, de seus reais desejos, até ajudando a criar piadinhas
Preguiça: Acho que devemos escolher um juiz.
Tempo: Já o fiz (Todos o olham). Entre.

Entra em cena a Beata.

6 comentários:

Thiago César disse...

escrevendo uma peça online eh?
tah ficando interessante... hehe!
parabéns!

Paulo Henrique Passos disse...

“... Vaidade é definitivamente meu pecado favorito!” John Milton (diabo)(Al Pacino) - "Advogado do Diabo"

Muito bom mesmo o texto!
Discuçãozinha difícil essa,cada personagem tem suas razões e todas são verdadeiras (o pior é isso).

Paulo Henrique Passos disse...

Ah! desculpe a enorme ausência aqui nos comentários.

CA Ribeiro Neto disse...

Marcella, tou gostando muito!

Realmente isso está com muita cara de Pedro Gurgel, hehehehehe, mas dá pra sentir sua leitura, o jeito que você escreve me agrada muito!

beijos

A moça da flor disse...

realmente! quase vi o Pedro declamando esse texto! Hehe. Cheio de impacto.
Gostei. Gostei da forma da sua narrativa. A gente lê e fica querendo saber o que vai acontecer em seguida.

Desculpe a negligência. Irei caprichar na assiduidade de agora em diante.
abraço

Pedro Gurgel disse...

Tivesse eu a competência dessa menina, digo, mulher...

Eu que pensava que era escritor! Isso sim é que é escritor. (no caso, escritora)

Estou extasiado com esse texto!

De um fã,

um beijo! =D