- Eu quero o divórcio.
Não havia nervosismo ou qualquer tipo de alteração em sua face que demonstrasse o quanto era importante a pronunciação daquela frase.
Ele a ouviu como se sua resolução não fosse óbvia, por mais que há tempos a esperasse, ainda doeu, de alguma forma, tais palavras. Talvez tenha esperado por tanto tempo que já não acreditava mais que ela teria forças para decidir pelo divórcio.
Apesar de não ter escondido sua surpresa, ele também não se manifestou contra sua decisão.
Seus filhos, postos cada um em um lado diferente da mesa, estavam estupefatos, temerosos e, inegavelmente, esperançosos que aquilo fosse somente mais uma das reações exageradas de sua mãe.
Ao olhá-la, os três notaram algo diferente. Era um pensamento estruturado há muito tempo e que não seria mais do que empurrado mesmo diante das mais poderosas palavras.
Bruno levantou-se da mesa com os olhos fixos na esposa. Luana não mudou a expressão do rosto ou o olhar. Ele dirigiu-se ao quarto enquanto a esposa ficou pensando que estava finalmente oficializando o fim de seu casamento. A partir dali, faltaria somente a missa de sétimo dia e coisas do tipo.
O silêncio estrondoso que dominou o apartamento era quase tão venenoso quanto os sarcasmos que reinavam naqueles cômodos há tanto tempo.
Luiz, o filho mais novo, não sabia se via naquele agora, o início de uma nova fase ou o fim de tantas agonias. Olhou para Lucas como se este possuísse alguma resposta, mas o irmão só tinha os olhos fixos na mãe, como se tentasse também traduzi-la.
Luana acompanhou Bruno com os olhos e por um momento Lucas viu seu olhar vacilar, como se tivesse pensando que talvez houvesse outra saída, talvez houvesse uma chance de Bruno ficar, mas ela o colocara para fora e sentia que era isso que devia ser feito. Fechou os olhos.
Bruno olhou a esposa por um tempo, não saiba se lhe beijava a testa, se lhe dava um abraço ou se somente partia. Despediu-se dos filhos, pois ao menos essa atitude tinha segurança e certeza que deveria ser feita.
Beijou a testa da esposa, que ainda permaneceu quase que imóvel, olhando para a mesa. Ao invés de acompanhá-lo com o olhar como fizera antes, agora o evitava.
- Te envio os papéis ainda essa semana_ falou ele quebrando o pensamento de todos na mesa.
Luana consentiu com um gesto e despediu-se do marido como se ele fosse um conhecido com quem se tem pouca intimidade.
A porta se fechou e a mulher retirou-se para seu leito vazio.
4 comentários:
Se eu tiver entendido errado, me perdoe, Marcella, mas pra mim, ela fez tudo isso, mas pensou no final: "não era pra tu ter ido embora, po!Era para pedir pra tentar e lutar mais uma vez!"
Ótimo texto, do jeito que eu gosto, com pouca descrição! hehehehe
beijos
Lembrei de minha infância. Do mesmo jeito que o caçula, hoje penso se não foi melhor o fim dos conflitos.
=*
realmente, isso deve ser chato...
=S
Escolhas que causam arrependimento: é osso!
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