segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Cúmplices Estrelares


Ela olhava-se no espelho todo dia, ao ponto de já conhecer seu humor pela imagem que via. Tinha dias que se sentia tão bela quanto podia ser, tinha dias que preferia nem sair de casa para não ser vista, olhada, julgada. Quanto mais se arrumava, quanto mais tempo demorava para escolher uma roupa ou um sapato, quanto mais maquiagem usava para adornar-se, mais frágil estava.

Vestia-se, pois, das barreiras da sociedade, entrando em seu jogo vil, para sobreviver aos golpes do próprio ego. Entretanto, foi em um dia em que estava despida desses medos e vestida de forma quase peculiar para os padrões sociais, que algo quebrou a própria rotina.

Em momento comum entre amigos, um deles, que mal nome tinha, pois até ali era como os outros, pediu licença para ficar mais a vontade e, por acidente ou não, deixou as pernas envolverem as suas. Aquele tocar de peles atrapalhados pelas roupas do dia a dia, aquele roçado se perfazendo de acidental, aquela intimidade formal, simplesmente a seduziu. Percebeu que o ventre contorcia-se e que este estranhamento subia por seu corpo afetando-lhe a respiração. Sentiu que ficava molhada e que inchava sob uma expectativa silenciosa de algo que nem mesmo sabia definir, mas que sabia um nome comum que podia usar. Desejo.

Como uma adolescente, começou a fantasiar outros toques, outras oportunidades. Passou a desejar carícias, beijos, demonstrações de afeto. Passou a se perguntar se tudo o que lhe provocara fora de propósito ou um mero acidente. Injustiça, pensava, que o poeta esteja certo e que haja tantos desencontros.

Quase sem querer, começou a provocar encontros acidentais entre eles ao mesmo tempo que evitava suas próprias armadilhas. Ocorre que era duas ou muitas, ou várias, ou tantas, e uma dessas era uma romancista e a outra uma realista. A primeira lhe escolhia as roupas, os brincos, os sapatos, adornava-lhe como quem brinca de boneca para atender, não mais aos padrões definidos, mas uma atenção específica de alguém ainda mais específico. Quando lhe sabia que ia encontrar, preferias saias, arrumava mais o cabelo e tentava sempre sorrir.

A segunda, a realista, sabia o caminho errado que seguia ao brincar de romancista, e sabotava os planos da primeira. Quem via de fora, pouco percebia qualquer coisa, se é que mesmo percebesse algo, teriam que lhe adivinhar as intenções até dos pequenos atos para poderem-lhe julgar de algo, se pudessem, a achá-la-iam louca.

As duas partes de si enfrentavam-se em sua mente, dando a cada escolha da rotina uma cor, uma graça e um impacto. Há muito tempo, ela não se sentia tão bela, tão viva, tão desafiadora de si mesma como estava sentindo-se agora. Era tão sua que nem mesmo parecia querer ser dele. Para não se vestir para ele, passou a vestir-se para si. Para não se pentear para ele, penteava-se para si. Para não se tornar bela para ele, tornava-se para si. Quando menos esperava, ela vivia para si, de fato, quase que curada de suas inseguranças.

Certa noite, resolveu nadar no mar. Vestiu seu maiô e nadou nas águas escuras até uma jangada que flutuava inocentemente. Sentou-se na navegação e ficou olhando para a costa, cada luz era uma poesia que somente quem é capaz de sentir o cheiro do oceano poderia entender. Então, o ouviu chegar em atendimento ao seu desejo. Ele subiu no barco e falou algo qualquer que para ela pouco importava. Ela movimentou-se de forma convidativa e ele atendeu ao convite, beijando-a e deitando-se sobre ela. Afastou o maiô com os dedos e começou a tocá-la para ouvir-lhe gemer de prazer. Apertava-lhe os seios e pressionava o corpo contra ela, usou as mãos para despi-lo parcialmente, para descobrir o membro enrijecido que apontava-lhe prazer. Ele a penetrou e sentiu que poderia gozar ali mesmo, na primeira penetração, mas não gozou, sentiu-o contra ela mais tantas e tantas vezes, enquanto seu quadril remexia-se de prazer. Então, ele jorrou dentro ela e ela entoou seu gozo às estrelas.

Quando abriu os olhos, viu-se sozinha sobre a jangada, com os dedos molhados e as estrelas cúmplices de seu desejo saciado, não por um homem, mas por ela mesma e seu romance.
No outro dia, ele parecia apreensivo, ela também estava, por diferente motivo, temia que ele lhe descobrisse o sonho erótico, como se seus olhos lhe fossem contar. Então, ele cuspiu-lhe em confidência que estava apaixonado por uma moça e que temia os próximos passos. Ela escutava com um sorriso no rosto e palavras de apoio, enquanto comemorava que tinha saciado seu próprio desejo em fantasia para que a realidade não a ferisse.

Nenhum comentário: