Um episódio recente me fez pensar sobre muitas coisas, mas a mais importante delas foi tenho poucas memórias boas da minha infância. Não consigo sentir saudade nenhuma de ser criança. É como se a parte boa da minha vida tivesse começado aos 14 anos de idade.
Tenho alguns raros momentos, como os piqueniques no zoológico de Brasília, ou os dias no Parque da Cidade. Em Fortaleza, algumas tardes assistindo filme com meus primos ou jogando o Jogo da Vida ou vídeo-game. Lembro também de brincar sozinha de sereia na piscina e, apesar da solidão, é sim uma memória boa, tão boa que é uma das poucas coisas que, às vezes, ainda me pego tentando recuperar da minha infância.
Por algum motivo, tenho milhares de outras memórias ruins que são muito mais fortes. Principalmente, relacionadas aos jogos de carimba. Gente, como eu odiava educação física! Era um momento para me dizerem como eu era fraca, lenta e desajeitada. Coisa que sou até hoje, só parei de me importar tanto.
Mas acho que de tudo, a lembrança mais marcante que realmente tenho é que eu não tinha amigos. Minha primeira melhor amiga, ou melhor, a quem eu primeiro assim chamei, foi também uma primeira decepção, porque éramos grandes amigas quando estávamos juntas e sozinhas, mas se tinha outras pessoas conosco, eu sempre me sentia em segundo plano e deslocada. A vinda para Fortaleza foi ainda mais traumática nesse ponto, imagine que uma pessoa que só tinha um amigo, agora não tinha nenhum.
Então fiz duas colegas na escola, mas elas pediam para eu dar voltas na quadra para poderem conversar a sós. E eu dava. Passava intervalos e intervalos sozinha, sem amigos, sem companhia. É uma das lembranças mais profundas que tenho da minha infância. Era uma mentirosa compulsiva e eu percebia, via, refletia sobre aquilo e fingia não me importar. Então, mudei de escola e ela estava "sempre ocupada". Lembrando que estou falando de uma criança. Certamente, não fazia por mal, inclusive, não fazia nada, só deixava claro que minha companhia era uma utilidade, não uma agradabilidade.
Na nova escola, conheci pessoas legais, mas ainda eram intervalos sozinha. Ainda era um mundo em que eu tentava me encaixar. Nesse lugar, aprendi a não me importar tanto em passar o intervalo sozinha porque eu tinha a biblioteca, podia ler os livros de mitologia grega, as revistas em quadrinhos. Podia estar lá e estar bem, por mais que isso viesse acompanhado de uma profunda tristeza quando eu refletia o fato de que eu não tinha amigos. Isso porque eu ficava sozinha no intervalo porque "minhas amigas" queriam falar assuntos privados aos quais eu não me encaixava na conversa, então pediam que eu saísse. Éramos crianças, nada disso é maldade. Talvez seja só ressentimento de uma pessoa que cresceu sem de fato aprender a lidar com seus traumas.
Tentei me encaixar em muitos grupos ao longo dos meus cinco anos no Piamarta. E apesar dos pesares, ainda foi com "as meninas" que me sentia menos deslocada. Quando penso em tudo o que fiz por atenção, pela esperança de uma amizade, me sinto ridícula, me sinto pequena. Principalmente, quando lembro das cartas que enviei me abrindo e como é desconfortável falar sobre elas. E cá estou, ainda escrevendo.
A verdade, não é que uma pessoa foi má comigo, a verdade é que eu queria amigos desesperadamente, mas amigos não se compram, não é assim que funciona. Eu queria me sentir menos só e mais amada. Eu queria sentir que ser eu não era tão errado quanto parecia, mas não podemos esperar que outra pessoa nos faça isso. Tudo bem que crianças de 12 anos não tem maturidade para entender isso. Tudo bem que crianças de 12 anos não tem maturidade para entender o que é uma agressão verbal e quando digo isso, estou dizendo conceitualmente, uma criança não sabe o efeito das palavras de fato, são só palavras.
Nenhuma dessas crianças tem mais que um rosto embaçado na minha memória, seus nomes coincidem com os nomes que hoje, adultos, carregam, mas porque é uma história, com H, não porque ainda existem. Nem mesmo consigo ter raiva de qualquer uma delas. Nem mesmo carrego mais raiva do professor que me humilhou na sala de aula, que me chamou de burra na frente de todos. Confesso que dele, ainda sinto medo, como se ele ainda pudesse me ferir.
Essas histórias também me assustam, porque tenho medo de ainda ser a mesma pessoa. Pior, cometi "bullying" já com 20 anos de idade, já sem a desculpa da imaturidade para me proteger do meu pecado. Na minha cabeça, eu estava incentivando a pessoa a reagir, a melhorar, foi preciso uma pessoa me chamar para um canto e me explicar o quanto aquilo tudo era opressor. Porque, às vezes, oprimimos e magoamos tentando ajudar. Porque falta empatia até em quem cobra empatia.
Nem todas essas pessoas saíram da minha vida, poucas delas na verdade. Com algumas, minha relação é de um estranho na rua. Com outras, hoje são meus amigos de verdade.
Recentemente, me disseram que eu não superei isso porque não esqueci. Já tentei explicar várias vezes que não posso esquecer, porque se eu esquecer posso voltar aquele lugar. Parece um devaneio, mas é verdade, porque no fundo, a verdade é que eu ainda sou a pessoa que daria a volta três vezes na quadra para deixar duas pessoas conversarem sem ela. Pegar minhas coisas e ir procurar algo melhor não é meu instinto, como seria mais saudável, é meu racional. Eu paro, penso e decido.
Eu ainda sou a mesma pessoa que escreve cartas ridículas, que perdoa praticamente tudo, que tenta tolerar tudo. E se ainda sou essa pessoa, o que me impede de continuar sendo a vítima de um abuso, são minhas lembranças. O que me impede de continuar me humilhando, são minhas lembranças. Eu não guardo mágoa de nenhum dos envolvidos, nenhuma única pessoa que me fez "bullying", de quem gritava Marcella Magricela, ou quatro olhos, ou não me deixava falar com palmas, ou que me deixava sozinha por qualquer motivo que seja, de quem dizia que era melhor não me ter no time de carimba ou que era melhor eu não ir para aula de educação física.
A única pessoa que eu ainda tenho mágoa é de mim mesma, porque até hoje eu enxergo que fui eu que me coloquei em todas essas situações, fui eu quem criou expectativas e fui quem permaneceu em relações que, na época, eram nocivas. Um "eu" com 12 anos de idade. Será mesmo que esse "eu" não existe mais? Será mesmo que ele aprendeu a se defender? Quem será que de fato eu sou?
Neste contexto todo, é importante dizer que tudo o que me tornei levou esses fatos em consideração. Decidi ser mais sociável. Aos 14 anos, eu me recriei. Fui me recompondo como quem pinta sobre uma tela. Eis onde reside a minha confiança ou esperança de não voltar aquele lugar, sou um novo quadro, espero não combinar mais com a escuridão daquele ambiente.
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