domingo, 10 de junho de 2018

Mulher hoje


Sobre minha experiência de mulher em um mundo de homens
Na minha infância, eu andava com meninas. Sentava forçosamente (pelos professores) no centro de um grupo de oito meninos (era na ordem da chamada), e passava os dias tentando assistir as aulas e ouvindo, a contra gosto, sobre olhos verdes da Mariana (menina de outra sala), sobre qual o melhor time do Brasil para montar no jogo não sei o que, qual o melhor time desse jogo, como tinha sido o racha da semana passada, principalmente se alguém tivesse dado um carrinho em alguém (incrível como eu tenha conseguido sair do ensino fundamental sabendo matemática e sem saber futebol).
Ao entrar na adolescência, andar com garotas, ouvir sobre meninos(não que eu não falasse, mas tinham que inventar um limite), maquiagem (até hoje não desenvolvi essa aptidão), ouvir uma colega se gabar porque recebeu uma cantada de pedreiro ou porque o amigo do pai dela deu em cima dela, fazia eu me sentir mais deslocada do que eu geralmente me sentia. Foi quando eu comecei a andar com garotos e foi SENSACIONAL!
De repente, eu estava andando com garotos e as conversas eram sobre músicas, livros, história, política...tudo bem, era também videogame, histórias em quadrinho, jogos de rpg... Eu me senti livre como nunca tinha me sentido antes. Eu comecei a ficar mais confortável com garotas porque eu andava menos com elas. E aos poucos fui conhecendo outras meninas que também falavam dessas coisas e meu mundo foi se abrindo de uma forma fantástica. E aqui gostaria de deixar claro que eu não via essa rivalidade feminina que o povo gasta horas falando.
Na minha adolescência, meu mundo era estar entre os garotos, mas não eram os garotos que formam o grupo dos populares nos filmes de comédia romântica adolescente dos estados unidos. Foi uma galera que me ajudou muito a viver os assédios que sofri nessa idade. Em nenhum momento relacionei a maravilha que era a companhia deles à orientação sexual, já que alguns eram gays e outros não.
Foi quando entrei na Engenharia que minha visão desse mundo masculino realmente mudou, tanto que brinco que a Engenharia foi minha maior decepção amorosa com os homens. Inicialmente éramos uma sala de 60 pessoas com 10 mulheres. Quase todo início de aula na segunda-feira, eles falavam sobre as festas e calouradas da cidade e das mulheres que tinham pegado nessas festas, mesmo aqueles que eram comprometidos (entenda-se: tinham namorada ou namoradas).
Aos poucos, o número de mulheres foi diminuindo e, minha presença entre eles, tornou-se tão cotidiana e rotineira que já não se censuravam nos comentários. A partir daí, descobri o que é uma mulher camarão, bacalhau, geladeira e fogão. Descobri também que alguns deles andavam com uma determinada menina porque achavam ela gostosa, mas quando ela saía, falavam mal dela até a quinta geração. Um dos dias mais marcantes para mim, foi um dia que a sala estava muito agitada e o professor de física disse: Gente, vocês precisam estudar, porque só estudando vão ganhar dinheiro e só com dinheiro vão pegar mulher. Eu me encolhi na cadeira pedindo, querendo definitivamente sumir dali. Um dos meninos gritou: Vai deixar essa passar calada, Marcella. Eu era a única mulher da sala. Isso não foi nem de longe o mais grave, mas acho que dá para entender um pouco da situação.
O tempo na faculdade vai passando e o clima vai mudando. Os comportamentos foram mudando, como um todo. E o machismo do ambiente se tornou bem menos explícito. Tanto que as principais lembranças que tenho dos meus colegas de faculdade foram de gentilezas e apoio nos diversos momentos de dificuldade que passei e que não cabem aqui.
Evidentemente, em um mundo como aquele, encontrei minha turminha maravilhosa que carrego até hoje para todo canto. Tentam ir para França, para Brasília, para Bahia, mas todo mundo volta e se junta porque se ama.
No trabalho, a diversidade de pessoas que conheci foi ainda maior e meu contato com o machismo foi de uma forma ainda mais diferente. Em uma visita técnica, por exemplo, um rapaz da sociedade não quis falar comigo, somente com o engenheiro homem que me acompanhava e já fui chamada de “bebê” e “meu amor” pelo engenheiro da empresa contratada, já estive em uma reunião que uma das pessoas sentou de costas para mim em uma mesa redonda, entre outras situações mais esdrúxulas que prefiro não escrever aqui para não gerar revolta.
Evidentemente, nem todos são assim, ao contrário, muitos homens não são. E o mais curioso é exatamente isso, mesmo aqueles que não são, tem dificuldade de perceber o machismo diante deles, ou quando percebem, não sabem como reagir, como defender. Pensam que falar o que a mulher queria falar, por exemplo, é dar voz a ela.
Há algum tempo uma amiga me perguntou se eu nunca tinha passado pela situação de duvidarem do que eu disse por eu ser mulher. Eu nunca senti isso, sempre atribuí mais esse tipo de reação à idade, do que ao sexo, mas em uma análise mais fria, é possível que eu esteja equivocada, pois eu já vi homens da minha idade terem a opinião mais respeitada que a minha em determinados momentos. Então entraremos em uma discussão de postura, etc, que provavelmente, vai cair em um ponto: o mundo ainda é dos homens e a engenharia principalmente.

2 comentários:

nayara xavier disse...

É bom ver uma mulher dessa área, muito bem resolvida e inteligente, por sinal,escrevendo um relato de uma "lugar" que poucas conhecemos - simplesmente pela dificuldade de entrar, e permanecer, nela, como mulheres.

Seu relato daria um belo artigo, uma bela pesquisa... não seria incrível? quero ser a primeira a ler!

beijo grande
... e saudades

Eng Washington Bastos disse...

Interessante como sua visão é equilibrada.. . Combater o machismo e combater os homens são atitudes diferentes, e foi diferencia as abordagens de forma simples e brilhante, explicitando o quanto o machismo te prejudica, ao mesmo tempo que demonstrar sua afinidade às amizades masculinas. Dessa forma, também dá pra entender q não necessariamente os sexos têm q ser idênticos para se tornarem iguais em direitos, deveres e oportunidades.

Também me fez pensar na permissividade que damos às pessoas mais fortes. As vezes não tomo atitudes quando os outros tratam mulheres fortes com machismo, as vezes me calo quando me tratam com preconceitos. Independente se as defesas são competentes, não deveriam existir esses ataques e por isso eles devem ser combatidos.

Adorei seu texto. Adoro sua visão de mundo, mesmo para esses assuntos mais sensíveis.