O homem entrou no ambiente de decoração marrom e intimista, com meia luz e cumprimentou a mulher que estava à mesa, que se levantou para o receber e o cumprimentou afavelmente. Ela sentou na poltrona e ele no sofá.
- Faz muito tempo que não venho, me desculpe.
- Não precisa pedir desculpas. O ritmo da terapia é seu.
- Eu sempre disse a você que sou um romancista. Lembra o que eu dizia da diferença entre o romântico e o romancista?
- Eu lembro sim, mas gostaria que o senhor repetisse, se incomoda?
- De maneira alguma, era inclusive minha intenção repeti-la. O romântico vive o romance, enxerga o romance, sente o romance. O romancista cria o romance, ele inventa o romance onde nem mesmo existe, ele é o romance, basicamente. Eu, minha cara, sou um romancista, mas nos últimos anos, vivi como um romântico.
- Isso é ruim?
- Não, talvez, não sei. A verdade é que se tornou.
- Pode falar mais sobre isso?
- Eu sinto falta dos meus romances. E sentindo falta dos meus romances, já não sou romântico. E não sou mais um ou outro. Já não sei quem sou ou como ser um ou outro. Em cada rosto, busco uma história que me inspire, no qual eu me encontre, no qual eu encontre horas a fios para depositar pensamentos e devaneios. Quem sabe até, em um desses encontros, eu veja alguém, que me faça sentir o que já me fizeram sentir antes, alguém que me entorpeça a alma, que me marque o corpo, que me manche a vontade e a mente, que me afete e de tão afetado e eu já não saiba quem sou porque sou também a pessoa que me afetou.
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