terça-feira, 28 de maio de 2013

A menina Cortada

Nunca querem realmente ouvir nossas histórias. Ninguém quer realmente saber a verdade.
Porque a verdade não existe, mas existem coisas que é melhor não saber.
É melhor não saber que uma pessoa próxima a você tentou seduzir sua filha, beijou seu pescoço e disse o quanto era linda e especial.
Ninguém quer realmente saber como a menina se sentiu.
Na hora de tomar decisões, ela é somente uma menina, mas na hora de se preservar contra a sedução de alguém em que ela teoricamente confia, ela é suficientemente madura e capaz.
Não são somente elogios. Não são somente estes anzóis de pirita tentando pescar na insegurança de uma jovem uma porta para o seu mundo inteiro, uma ferramenta para manipulá-la.
Há também as promessas, as esperanças, o carinho. Há toda uma construção complexa e detalhada de uma ilusão que mais tarde se quebrará e ao se quebrar deixará somente os cacos cortando a menina.
E a menina cortada se sente tola, suja, triste.
A menina cortada é culpada em seu mundo, pois era seu corpo e foi ele que foi sujo.
A menina cortada sente falta de si mesma ao olhar-se no espelho e pergunta-se como pôde, como pôde se deixar seduzir, como pôde ser tola. Que importa sua idade? Que importa seus achismo? Que importa?
Importa somente que ela já não é ela, que seu corpo é menos seu para si mesma.
Ela sente arrepios de suas lembranças, mal consegue tocá-las, olhá-las.
A lei a chama de vítima, mas ela se olha no espelho e vê a defesa que não usou. Sente o julgamento silencioso (ou não) de um mundo inteiro.
O mundo não quer saber do bebê que foi morto em um estupro pelo irmão, mas quer saber menos ainda da menina que podia se defender, porque ela estava errada. Errada porque deixou ele se aproximar, errada porque deixou ele a tocar, errada porque usou as roupas erradas, erradas porque confiou em quem não devia, errada porque não soube explicar nem a si mesma o que acontecia, errada porque se fez cega, errada porque não se achou, errada porque se calou, errada porque falou, errada porque é errada.
E ao fechar os olhos ela escuta aquela velha e confiável voz: "Não conte a ninguém o que temos, as pessoas são maldosas e podem entender errado, mas nós dois entendemos".

Sim. Entendemos.

Assinado: A menina cortada

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P.S.: A assinatura na verdade leva a uma campanha contra o abuso sexual, que me tocou por diversos motivos e que me senti na obrigação de divulgar. Como cidadã, como mulher, como gente...

Um comentário:

Thalita Castello Branco Fontenele disse...
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