Seis horas da manhã o celular tocou e ela despertou. Segurou a toalha entre os dedos com os olhos ainda semiabertos e jogou-se embaixo do chuveiro. A água gelada desceu pela coluna despertando cada vez mais por cada vértebra que atravessava.
Ela vestiu seu uniforme azul, abriu a geladeira, tirou um iogurte e uma fruta e comeu rapidamente, ainda em pé. Calçou a sapatilha preta e saiu às pressas.
Perdeu o ônibus. Ele ainda passava pela parada quando ela aproximava-se da esquina.
Esperou pelo próximo que demorou mais do que normal. Estava lotado e ela ficou em pé, com os olhos sobre o ponteiro do relógio que falava irritantemente: Está atrasada.
Chegou no trabalho sendo recepcionada pelo olhar nada convidativo de seu chefe, que olhou no relógio mas nada falou.
A manhã toda mexendo em documentações e aturando clientes chatos, finalmente findado com um sermão de sua chefe.
Seguiu para a lanchonete da esquina e comeu um sanduíche que felizmente estava gosto, fotografou-o com o celular, mexeu na iluminação e publicou na rede social.
Levantou-se e voltou para o trabalho, no qual o ex-namorado apareceu para deixar um dinheiro que lhe devia e ela agradeceu com uma voz rouca.
No fim do dia, arrumou toda a mesa de forma impecável e fotografou novamente, dessa vez, publicou sem mexer na iluminação, mas acrescentou a mensagem: "meu cantinho".
Saiu sem falar nada e caminhou até a parada, pensando em quão lotado estaria o ônibus, pegou um em outro sentido, que estava mais vago e foi para a beira-mar. Olhou o mar e pensou como seria dormir para sempre naquela água, ou se alguém sentiria sua falta.
Saiu andando com a brisa no rosto e um aperto sem nome. Tirou uma foto do mar e publicou novamente, tomou um sorvete para ver se o doce a deixava mais feliz e sorriu quando a calda quase caiu na sua blusa, mas ela pegou antes com a língua. Publicou isso também.
Então foi pra casa, entrou no computador, mandou recado para algumas pessoas, despediu-se de todos e foi dormir após ler: Vi tuas fotos na praia hoje, fiquei tão feliz pela sua paz.
Precisava dormir e acreditar também que estava em paz. Isso ela não publicou.
Um comentário:
"quem um dia irá dizer, que existe razão...?"
Talvez eu não tenha entendido a princípio... mas foi bom sentir. A ideia da dúvida e da descoberta não são tão contrárias assim.
Talvez eu me veja bastante para acreditar...
a felicidade só é real quando compartilhada - já dizia Chris em In To The Wild.
Seja compartilhada na vida como "concreta", ou nas redes sociais e sua liquidez.
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