A música alta, a multidão, o cheiro de cigarros, a energia da conquista, o suor da caça, o medo da solidão, o ambiente escuro, a falta de espaço.
Anita atravessava a multidão buscando um lugar em que pudesse estar, pois ainda não estivera em nenhum metro quadrado daquele campo.
No meio da multidão, um vazio. Anita acomodou-se e tentou sentir a música e a noite.
Era impossível como me parece impossível explicar-lhes o que havia com Anita. Imaginem um jogo de xadrez que cada movimento de peça, sendo esta sua ou não, leva a milhares de análises. Nenhum movimento é um simples movimento. Cada um pode gerar milhares de outros movimentos que serão devidamente analisados. Assim é. Assim foi.
Cada movimento que Anita fazia ou que era realizado ao seu redor era minuciosamente observado e analisado.
Presa a uma realidade tão racional, Anita lembrou-se das aulas do catecismo em que a professora explicou-lhe a importância do fechar os olhos para orar.
Anita fechou os olhos e ouviu a música. Deixou a melodia tornar-se enchente. Era como se uma barragem rompesse e a água adentrava-lhe a alma com toda a fúria dos deuses gregos.
Tiraram-lhe a pele. Anita tornou-se nervos. Tornou-se o que fora ali para ser, mesmo que para isso tivesse sido necessário não estar ali.
O cheiro de cigarro adentrou as narinas e despertou-lhe, devolvendo-lhe a pele e dando-lhe ainda mais uma couraça. Ela olhou confusa para a fonte e percebeu que estava no lugar errado. Queria sentir com a alma onde julgava que as pessoas queriam sentir com o corpo.
5 comentários:
"Queria sentir com a alma onde julgava que as pessoas queriam sentir com o corpo. "
Descoberta escomunal!
"Queria sentir com a alma onde julgava que as pessoas queriam sentir com o corpo." - por isso mesmo prefiro um barzim a uma festa, boate, lugares onde tem música alta em geral.
Marcella Facó, assim como Veríssimo - o pai -, é uma das melhores descricionistas que já li.
"Anita lembrou-se das aulas do catecismo em que a professora explicou-lhe a importância do fechar os olhos para orar.
Anita fechou os olhos e ouviu a música."
Pra mim também, a música é como uma oração! Entendo bem isso de fechar os olhos, porque o faço as vezes para sentí-la melhor, principalmente quando é uma que significa muito pra mim.
Tens o dom dos contos mesmo!
Abraço! =)
Belo conto...
;)
Quantas vezes nos sentimos como a Anita?
"Nenhum movimento é um simples movimento." Adorei!
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