Pontualmente, como sempre, ela estava lá, usando um vestido preto discreto, sem nenhuma maquiagem além de um batom vermelho. A mexa caía-lhe sobre o rosto desarmonicamente e ele sorriu ao olhá-la.
- Posso me sentar?
Ela o olhou fixamente nos olhos e não pôde esconder que parara a respiração. Susto. Emoção. Tudo. Nada.
- Claro.
Falou com a garganta arranhada, presa por palavras perdidas,
- Faz muito tempo que não nos vemos.
- Faz mesmo.
- Como você anda?
- Estou bem. Muito feliz no trabalho.
- Casou?
- Não. Como anda seu casamento?
- Bem. Você sabe, ela é...
- Não fale mal dela, por favor.
Ele a olhou.
- Você falava muito mal dela no passado. Falava mal dela para que eu desvalorizasse a relação de vocês, não é?
Ele a olhou.
- Sempre de poucas palavras. Você me magoou. Olha, eu sei que a culpa é minha, ok? Eu sei mesmo. Mas você me magoou.
- Desculpe.
- Eu pensei que éramos amigos e não éramos. Eu pensei que podia acreditar em você.
- Você podia. Eu nunca prometi nada.
- Não é uma questão de prometer. Você foi covarde e foi sua covardia que me magoou. Não foi um romance que eu desenhava na minha cabeça, foi sua covardia, tão somente isso.
Ela levantou-se e ele a viu partir enquanto imaginava o que teria acontecido se a tivesse tomado em seus braços.
Ela levantou-se e caminhou sem olhar pra trás, sentindo o mesmo nó na garganta que sentira quando o viu e pensando o que teria acontecido se ele a tivesse tomado em seus braços.
"Mas existe verdadeiramente outro rumo? Na verdade, só existe a direção que tomamos. O que poderia ter sido já não conta. " Mario Benedetti
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