terça-feira, 8 de setembro de 2015

Uma taça de vinho, por favor.

Ele empurrou a pesada porta de vidro preto e entrou no pub. Passou a vista rapidamente por todos, procurando por ela ou por uma mesa vazia.
Pontualmente, como sempre, ela estava lá, usando um vestido preto discreto, sem nenhuma maquiagem além de um batom vermelho. A mexa caía-lhe sobre o rosto desarmonicamente e ele sorriu ao olhá-la.
- Posso me sentar?
Ela o olhou fixamente nos olhos e não pôde esconder que parara a respiração. Susto. Emoção. Tudo. Nada.
- Claro.
Falou com a garganta arranhada, presa por palavras perdidas,
- Faz muito tempo que não nos vemos.
- Faz mesmo.
- Como você anda?
- Estou bem. Muito feliz no trabalho.
- Casou?
- Não. Como anda seu casamento?
- Bem. Você sabe, ela é...
- Não fale mal dela, por favor.
Ele a olhou.
- Você falava muito mal dela no passado. Falava mal dela para que eu desvalorizasse a relação de vocês, não é?
Ele a olhou.
- Sempre de poucas palavras. Você me magoou. Olha, eu sei que a culpa é minha, ok? Eu sei mesmo. Mas você me magoou.
- Desculpe.
- Eu pensei que éramos amigos e não éramos. Eu pensei que podia acreditar em você.
- Você podia. Eu nunca prometi nada.
- Não é uma questão de prometer. Você foi covarde e foi sua covardia que me magoou. Não foi um romance que eu desenhava na minha cabeça, foi sua covardia, tão somente isso.
Ela levantou-se e ele a puxou pelo braço e a beijou. Ela deixou-se cair em seus braços e por um instante não houve nada além daquele momento.
Ela levantou-se e ele a viu partir enquanto imaginava o que teria acontecido se a tivesse tomado em seus braços.
Ela levantou-se e caminhou sem olhar pra trás, sentindo o mesmo nó na garganta que sentira quando o viu e pensando o que teria acontecido se ele a tivesse tomado em seus braços.

"Mas existe verdadeiramente outro rumo? Na verdade, só existe a direção que tomamos. O que poderia ter sido já não conta. " Mario Benedetti

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