Todas as sextas-feiras, saio do meu trabalho direto para uma praça próxima que possui uma bela e confortável árvore que me acolhe muito bem. Sentava-me em suas raízes como uma criança em busca de colo e abria um livro qualquer para satisfazer-me a mente.
Comecei a observar, então, um casal de jovens que frequentava a praça assim como eu e muitas vezes preteria meu livro para lê-los.
Acontece que o rapaz olhava-a de forma única. A moça, comum a tantos, era única para ele. Seus olhos mudavam de cor, de vibração, de pintura, quando estava a admirá-la. Até o seu sorriso parecia mais torto, ou mais tímido, quando era provocado por ela.
Não era ele, porém, que me atraía o olhar. Era a jovem de longos cabelos negros e olhar cínico que me captava a curiosidade. Ela parecia tão fascinada pelo fascínio que quase chegava a doer a ele. Até para mim, mero expectador, seu olhar era dúbio. Quem lhe cativava? O fascínio ou o menino?
Ela provocava-o sempre que podia. Fosse olhando para um homem interessante, fosse fazendo perguntas para o constranger, fosse contando-lhe histórias perturbadoras sobre seus romances, casos, atrações e desejos.
Até sua maneira de tocá-lo parecia testá-lo. Seus olhos estavam sempre entre a observação e a inexatidão.
Certo dia, ele tentou beijá-la. E como uma menina, ela desviou e beijou-lhe o rosto, fez uma brincadeira qualquer e puxou-o para dançar no meio da praça, sem música alguma além da sua.
Ele ficou desconcertado, deixou-a guiá-lo pela dança.
Algumas semanas depois, vi a menina passar por mim correndo e chorando em direção a praça. Não era uma sexta-feira, mas foi inevitável entregar-me a tentação de segui-la.
Cheguei a ver a maneira leve e certeira com a qual ela jogou-se nos braços do amigo em prantos e a maneira delicada e sincera com a qual ele a cuidou.
Depois de vê-la calma e os dois em harmonia, decidi partir. Quando passava ao lado deles, porém, vi-o trançar seus dedos entre os cabelos dela e com a voz trêmula de poeta perguntar:
- Você me libertaria se não me quisesse?
Quanto a resposta, lembro-me somente de seus olhos de Capitu.
E o enfeitiçado já era eu.
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