sábado, 4 de agosto de 2012
A artista
No final da minha rua, existia uma menina que tinha poucos amigos, mas um grande talento que lhe engolia toda a solidão.
Sua mãe fez da garagem um ateliê de arte e lá, ela fazia obras que impressionavam todos na rua. Alguns, com despeito ou não, diziam que não trocariam seus amigos por tamanho talento. A verdade é que as cores e a vibrações daqueles quadros tocavam a todos.
Certo dia, mamãe insistiu que eu fizesse amizade com aquela menina, pois tinha pena de ela ser tão só. Não tentei explicar a minha mãe que aquele era seu mundo e que achava que ela era feliz daquele jeito.
Seria inútil. Mamãe era presidente da associação de moradores e membro mais antigo da associação de pais e mestres da minha escola. Pessoas era sua vida.
Tentei conversar com a menina, mas ela pouco falava e menos ainda sorria, quando muito, cantava com sua voz aguda e desafinada.
Eu sorria.
Fiz isso durante alguns dias, algumas semanas, não sei por quanto tempo. A verdade é que no ateliê, eu podia ler, descansar e ver a arte acontecer.
Certo dia, a menina virou-se para mim e perguntou se eu não queria ver seu quadro predileto. Assustei-me pelo tanto que aquilo significava. "Trata-se de um auto-retrato", explicou-me.
O quadro era extremamente colorido, o azul, o vermelho, o amarelo, o verde pareciam fazer você dançar em um arco-íris. Nunca me senti tão bem olhando para um quadro quanto naquele dia.
"Mas o quadro é tão feliz e extrovertido".
"Sim", respondeu ela a minha pergunta implícita, "como eu sou, só que esqueci de ser".
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Um comentário:
Esquecer-se de ser... Nossa. E nós, escritores, Marcella, ficamos em preto e branco? rs.
Gostei bastante do texto, ainda mais pela sensação de se afogar nas cores, mas se afogar mesmo, feito água-arco-íris, e não pela imagem, mas pelas palavras mesmo. Pelo esquecer-se de ser. Muito bom!
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