terça-feira, 6 de junho de 2023

Flores ou dores

 Se minha dores falam seriam como repelentes,  por isso escrevo e leio.  Na escrita e na leitura elas se aconchegam e esquecem de doer. 

Solidão

A menina franzina, dos pulsos tão magros que se viam os ossos, não porque não tinham comida em casa, mas porque algumas meninas são assim, magrinhas que parece que o vento pode levar a qualquer momento, descia as escadas atrás de companhia. Viu seus colegas de sala reunidos no meio do pátio e juntou-se a eles, não abriram espaço, mas ela se enfiou em algum buraco, vantagem de ser magricela.
Do que falavam, ela não conseguia acompanhar. Tentava participar mas não sabia o que falar, ninguém também dava oportunidade. Então, em um momento de silêncio, viu a oportunidade de criar um assunto e falou: olha estamos formando uma elipse perfeita.
Alguém soltou: Ai! Você é muito nerd! E o grupo se dispersou a menina ficou sozinha no pátio novamente.
Olhou para os arredores, todas aquelas pessoas e só havia solidão e cimento. As poucas árvores, com as raízes enterradas naquele piso morto e sem graça, naquela arquitetura ríspida das escolas cristãs. Sentou-se próxima à porta da biblioteca e esperou o tempo do toque para o retorno das aulas, observando as pessoas e seus movimentos.
Naquele dia, ela aprendeu o significado da palavra solidão.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Kintsugi

Nunca inteira. Sempre quebrada. Sempre em partes. Emenda-se como quem faz outro.  Transforma-se como quem já é outro. Quando menos se espera ainda se é o mesmo. Já não caibo mais em mim. 


sexta-feira, 6 de maio de 2022

Por hoje é só

O que são os pensamentos? Imagens e sons. Não os meus. Meus pensamentos não possuem imagens, tão pouco sons. São ruídos desgovernados, batendo nas paredes do presente, do passado e do futuro, sem ordem ou prioridade.

Apanho do chão as migalhas de compreensão que consigo tirar desse caos.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Suspiros

Mesmo nos momentos de maior sanidade, encaramos a loucura em nossos corpos. A loucura pode estar manifesta em nosso corpo, pele, olhos, lábios, língua, unhas, mente ou coração.
Ah! O coração! O músculo de movimento involuntário com tão pouca autonomia a quem é atribuída tamanha simbologia

Velhos amigos, mas nem tanto

 As mesas espaçadas e as luzes incandescentes, coloridas, enfeitando o ambiente como se fosse festa junina. Ao ar livre, cercados por árvores e gramas e casais e aquele amor idealizado. Entre eles, o meu. Sentada ao lado da pessoa que eu escolhi e que me escolheu. Não nos olhamos nos olhos mas nos tocamos frequentemente. Perna encostada na perna, mãos que se acariciam furtivamente.

Então, entre meus devaneios sempre frequentes, quando meu olhar atravessou a multidão quase que por acidente, encontrei teu sorriso direcionado aos teus filhos. E o sorriso dela sempre livre entre as bochechas carnudas.

Você estava feliz e sua felicidade me alegrava e me doía. Doeu pensar que poderia ter sido nós dois. Mas será que poderia? Será que essa roupa me vestiria? Não me parece servir. Parece aquela sensação de quando você assiste um filme de ficção e pensa, "minha vida poderia ser assim", mas no fundo você sabe que não poderia porque precisaria que você fosse outra pessoa, no caso, eu precisaria ser outra pessoa.

Foi bom ver seu rosto, tão perto, tão longe e tão real. E antes que qualquer outro pensamento se formasse, eu acordei. Despertei com o corpo dolorido e a bexiga cheia. Fora um sonho. Tudo fora um sonho. Sonhar com você depois de tanto tempo pareceu estranho, nostálgico e tão significativo.

Foi bom ver seu rosto, porque pareceu, mais do que nunca, que pude ver algo dentro de mim.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

A raiva e o equilíbrio

A alegria e a tristeza. A saúde e a doença. O prazer e o desgosto. Yin e Yang. Dualidade. Antônimos. Maniqueísmo. Estamos sempre procurando opostos, compreender o um conceito por seu confronto com outro conceito. Construir significados de presença, pela sua ausência e vice-versa. Senti-los.

Qual seria então o antônimo da raiva? A paz? A tranquilidade? A serenidade?

O que é a raiva afinal? Um gigantesco monstro verde capaz de destruir cidades mas que nós guardamos por baixo da nossa pele até que ele rompa? Um poder gigantesco capaz de transformar uma criança em um macaco gigante? Os dentes afiados de uma fera prestes a atacar? Uma voz interna que pode ser caracterizada por um nada simpático personagem vermelho que lança chamas de sua cabeça? Um dos sete pecados capitais?

Eu nunca atribuí à raiva, um conceito, mas sempre uma sensação. Um fogo interno que consome tudo o que vê pela frente, inclusive racionalidade, ponderação, empatia. Uma força que domina a boca e cega os olhos e, em alguns casos, toma-nos o controle das mãos. Descontrole.

Se há alguns anos me perguntassem o que mais me incomodava em sentir raiva, eu responderia: não me sentir eu mesma. O que seria uma total mentira. O que mais me incomodava na raiva era a crueldade. Era saber que em um acesso de ira, eu poderia ferir irremediavalmente alguém que eu amava atingindo-lhe seus pontos fracos com palavras mais afiadas que katanas. Como confiar em si mesmo?

Hoje, continuo compreendendo a raiva como um fogo, como uma energia que nos consome, que pode ser utilizada para vencer inércias ou para construir o caos, depedendo de como você a encare. Contudo, hoje, também compreendo que a raiva pode ser algo necessário. A raiva pode ser um escudo, uma solução, uma defesa às agressões do mundo ou do outro, porque não. Também podemos usar fogo para acabar com incêndios. Podemos usar a raiva para impedir que nos batam. Podemos usar o calor para cauterizar feridas.

Parar de enxergar a raiva como algo que deve ser evitado foi libertador, mas olhando agora, parecia uma resposta tão óbvia. A raiva é costumeiramente associada ao nosso lado mais animal e, olhando a natureza, ela usa a raiva como proteção, principalmente contra esse bicho homem que a ataca sem racionalidade alguma, mesmo não estando com raiva.

Continuo sem saber se a raiva é um antogonico da serenidade, mas já a compreendo como parte de nós, tão entrelaçada às demais emoções que suprimir indiscriminadamente a raiva pode ser tão ou mais perigoso quanto deixá-la emergir sem cuidado algum.

No fim das contas, a palavra é Equilíbrio.